"(...) Mesmo que o espírito esteja calmo,
não deixe o corpo relaxar;
mas quando o corpo estiver relaxado,
não amoleça o espírito."
(Miyamoto Musashi)
por Oliver Blanco
A Agricultura Generativa é o entendimento amplo da vida do solo e da autonomia camponesa, contrapondo as narrativas recentes sobre agricultura regenerativa de interesses corporativos e as formas de doutrinação. Conecta a microbiologia, a história, a política, a cosmologia e a espiritualidade para sustentar que a matéria orgânica e o conhecimento do solo foram sistematicamente ocultados ou desvalorizados.
A agricultura regenerativa não é algo novo. O trabalho ecológico com agricultura e alimento sempre existiu e compreender os processos de geração da vida, não apenas de regeneração, é o que gera a autonomia econômica camponesa como eixo central do desenvolvimento e restauração do tecido social rural através da gestão dos recursos naturais (solo, árvores, micróbios, minerais, ecossistema etc.). O tema da matéria orgânica é complexo e o objetivo é preservar sua independência frente a interesses militares, políticos, ideológicos e de subsídios exógenos.
Agricultura ecológica camponesa em sistema de Agrofloresta, de “equilíbrio biológico dinâmico”, econômico (entre campo/cidade) e reguladora do Clima local, não deve ser conduzido por agendas externas, mas por um entendimento próprio do solo, da produção e da dignidade da profissão camponesa. A desvalorização social da figura do camponês é um risco para a manutenção da vida das pessoas na cidade, e parte deste processo mais amplo está na concentração fundiária e a perda de autonomia pela imposição de um modelo de negócio agrícola sintético, artificial à Natureza.
Maturana e Varela para diferenciar autopoiese de alopoiese, reforça que os sistemas vivos se organizam a partir de si mesmos e não apenas por intervenção externa. Essa distinção é levada para além da biologia, alcançando a dimensão social, psíquica e até espiritual, com a ideia de que a agricultura também envolve consciência, organização e relação comunitária. Defendemos que a compreensão do solo e da vida precisa ser profunda, traduzida de modo acessível e conectada ao cotidiano do campo. A ignorância sobre esses conceitos ajuda a manter visões empobrecidas sobre agricultura e natureza.
A matéria orgânica no solo é historicamente ocultada e destruída, apesar de já ser conhecida em práticas antigas e em experiências de camponeses e povos nativos – terra preta indígena (TPI), as Chinampas mexicana, são exemplos de Agriculturas para a Vida com sustentabilidade para as próximas gerações. Matéria orgânica é uma comunidade de micróbios, e não apenas um insumo; por isso, ela depende de vida, diversidade e manejo correto para produzir fertilidade e saúde no solo.
Modelos de alto rendimentos baseados em transgênicos, patentes e fórmulas industriais não trazem uma visão mais viva e integrada do solo. Até mesmo uma Agrofloresta em escala maior com “sucessão ordenada e dirigida num determinado sentido não é, de modo algum, universal nas condições naturais. Em áreas em que o meio físico apresenta caracteres extremos ou é sujeito a frequentes modificações em grande escala, pode acontecer que os organismos sejam incapazes de modificar o ambiente” (Odum). Manejar uma Agrofloresta reside em conhecer a maneira de como suspender a sucessão e manter em existência permanente a comunidade seral desejada. A referência, além dos livros antigos, é a microbiologia camponesa, o clima e à fenologia que serve para mostrar que há saberes mais ricos e úteis do que certas abordagens modernas centradas em interesses comerciais.
É muito recente que na história colonial, as perdas de territórios, culturas e saberes agrícolas, por causa direta de agentes religiosos, tratados, inquisições e a imposição de poder sobre terras e povos, devem receber críticas profundas as corporações, propagandas, algoritmos e redes sociais, vistos como instrumentos de destruição da autonomia e de disseminação de medo e ódio.
Uma conversa sobre Bioenergética da Agrofloresta Camponesa se discuti a importância do autoaprovisionamento de matérias (“biopreparados artesanais”) para a produção de alimentos em equilíbrio entrópico/sintrópico na gestão da propriedade. Os Biopreparados (biofertilizantes) melhoram o equilíbrio nutricional da Agrofloresta em biossistemas diversificados: hortaliças, frutíferas, grãos, madeireiro e criação de animais, aumentando sua qualidade, a produção, a independência de fertilizantes químicos e maior resistência às mudanças climáticas. A violência política, a guerra e a manipulação ideológica a um mesmo padrão de dominação, e reforça que o tema da matéria orgânica não pode ser separado da disputa pelo poder. Compreender as práticas ancestrais atualizadas na nova matriz biotecnológica da agricultura e toda essa história no tempo/espaço/matéria é essencial para manter identidade, autonomia e o orgulho do profissional em agroecologia em novos horizontes de disseminação fértil da Agricultura para a Vida.

