Só agora vem à tona a dimensão do papel que as mulheres desempenharam no impulso ao desenvolvimento e à disseminação de uma agricultura alternativa. Elas foram esquecidas pela historiografia. Mesmo nomes de pioneiras como Mina Hofstetter, Lilli Kolisko ou Maria Müller são pouco conhecidos. Isso precisa mudar.
Por Annika Ross – 24 de agosto de 2022
Pesquisadoras de plantas, especialistas em compostagem, criadoras de sementes, biólogas, jardineiras. Todas as mulheres que foram as primeiras a estar preparadas para repensar a agricultura – em harmonia com a natureza. Onde estaria hoje a agricultura orgânica se essas mulheres não tivessem existido?
Já a partir do final da Idade Média (século XV, 1453), as mulheres começaram a pensar sobre a fertilidade do solo. Porquê? Porque elas tinham sua família para alimentar, e também seu próprio laboratório: seu jardim. Todas as 12.000 culturas comuns hoje finalmente passaram pelo jardim. As mulheres do final da Idade Média mexeram em seus jardins, cruzaram plantas, adaptaram a semente à respectiva natureza do solo, tentaram torná-lo mais fértil sem expô-la. Elas eram dependentes da fertilidade contínua, a fim de ser capaz de colocar comida na mesa para suas famílias.
Ao contrário dos homens que experimentaram em público, as mulheres permaneceram escondidas em seus jardins. A reputação de saber muito sobre as plantas poderia ter sido mortal para elas. Um pouco de conhecimento no herbalismo por si só foi suficiente para trazer as mulheres para a estaca como bruxas. O próprio jardim das mulheres era o seu refúgio e muitas vezes uma das poucas maneiras de ganhar algo de forma produtiva: nutrição, cura, cuidado. As mulheres tiveram que lutar por um “espaço para si mesmas” em todas as épocas – um jardim era muitas vezes a seus pés. E ele era o núcleo da "agricultura ecológica".
"Agricultura ecológica" é um termo abrangente que engloba diversos conceitos de manejo da terra surgidos a partir da década de 1920 na Suíça, na Alemanha e na Inglaterra. Todos eles defendem uma visão holística que integra ser humano, planta, animal e natureza, nascida dos movimentos de reforma do final do século XIX. O movimento de reforma da vida (*Lebensreform*) também preconizava um estilo de vida em harmonia com a natureza, alimentação saudável, vida no campo, autossuficiência em terra própria, medicina natural (*naturopatia) e uma relação mais livre com o corpo. Tudo isso surgiu como reação às profundas transformações sociais decorrentes da industrialização e da urbanização. O impulso motriz era a necessidade de dar sentido a uma existência marcada pela alienação e de vivenciar a si mesmo — corpo e mente — por meio de um modo de vida condizente com esses ideais. Entre os pioneiros mais conhecidos estão Rudolf Steiner e Hans Müller. Não é de surpreender que, nesse contexto, as mulheres também quisessem redefinir os papéis de gênero; afinal, o terreno para isso já havia sido preparado pelo movimento feminista da segunda metade do século XIX (1848). Foram fundados os primeiros institutos, faculdades e escolas voltados para a educação feminina e, por fim, conquistou-se também o acesso geral das mulheres às universidades.
Muitas das pioneiras da ecologia frequentaram as recém-criadas escolas de horticultura, tornaram-se jardineiras profissionais ou fundaram elas mesmas centros de formação, como os assentamentos femininos de Loheland (1919) ou Schwarzerden (1923), na região de Rhön. Essas mulheres queriam trabalhar abertamente com conceitos alternativos e compartilhar suas conquistas. E, excepcionalmente, elas finalmente tinham uma vantagem de "jogar em casa": a agricultura ecológica, em seus primórdios, era mais ou menos uma *terra incognita* — um território científico inexplorado, sem terminologias estabelecidas, princípios fundamentais ou métodos de pesquisa reconhecidos.
Como é possível melhorar a fertilidade do solo? Como posso alimentar melhor a família? As mulheres também se beneficiaram do fato de que suas pesquisas eram vistas como algo marginal. Nas ciências agrárias, dominadas por homens, a agricultura orgânica não era considerada ciência, mas sim ideologia. Consequentemente, as mulheres enfrentavam menos concorrência masculina e menos posturas de autopromoção.
Historicamente, a primeira fase da agricultura ecológica é conhecida como "agricultura natural". Sua grande pioneira foi Mina Hofstetter (1883–1967). Nascida em Stilli, no cantão de Argóvia, filha de uma família pobre de pescadores e jangadeiros, ela sofreu com doenças graves durante a infância. O jardim desempenhou um papel central em sua vida, ajudando a sustentar a família durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. Além de hortaliças, Mina cultivava cereais em seu jardim e realizava experimentos com cobertura do solo, compostagem, rotação de culturas e ciclos lunares. Ela rejeitava o uso de agrotóxicos, alertava já naquela época para a acidificação dos solos e defendia a ideia de "solo saudável, plantas saudáveis"
Mina estudou as obras de Raoul Francé, um especialista em solos famoso na época; ela defendia o cultivo de cercas-vivas e arbustos para atrair pássaros, recomendava não remover ervas e plantas rasteiras e utilizava água argilosa, infusões de ervas e lama de rocha como produtos de pulverização na fruticultura. Graças ao plantio em linhas e ao transplante de plantas que apresentavam espigas pesadas e grandes — medindo entre 30 e 40 centímetros —, ela conseguiu aumentar enormemente a produção de grãos. Isso despertou o interesse dos agricultores. Hofstetter expôs suas espigas em feiras e recomendou a adoção de práticas agrícolas de estilo hortícola nas encostas mais íngremes. Em 1928, publicou seu primeiro manifesto, intitulado "Brot" (Pão), sob o pseudônimo — assumidamente feminino — de Gertrud Stauffacher.
Não foi apenas o subtítulo — "A solução da questão dos cereais pela mulher, livre de monopólios" — que provocou reações, mas também o conteúdo da obra. Mina, ela própria vegetariana, defendia uma agricultura sem criação de animais e o cultivo em canteiros, práticas adotadas na China há mais de 6.000 anos. Ela criticava os subsídios concedidos aos agricultores ricos e exigia do governo a disponibilização de terras para cultivo pelas mulheres, especialmente para as mães. A partir de 1929, a pioneira passou a ministrar cursos de agricultura e horticultura orgânicas em sua propriedade, a fazenda Stuhlen, em Ebmatingen, e, em 1936, fundou o centro de ensino "Seeblick". Posteriormente, foi convidada a participar de eventos por toda a Europa: na Áustria e na Dinamarca, no Dia Mundial da Paz em Paris e no congresso da associação internacional de mulheres em Viena.
A partir da década de 1930, Mina publicou artigos em periódicos ligados aos movimentos de reforma de vida (*Lebensreform*) e de vegetarianismo. Ela defendia constantemente que a agricultura deveria priorizar o cultivo de cereais em detrimento da pecuária, argumentando que essa abordagem permitiria alimentar um número muito maior de pessoas.
Foi em sua propriedade que, em 1947, fundou-se a "Cooperativa de Agricultura Biológica" (hoje: Bioterra). Sistemas agrícolas surgidos na Europa após a Segunda Guerra Mundial — e que perduram até hoje — basearam-se nas ideias de Mina. A palestra "Curso de Agricultura", ministrada em 1924 pelo guru da antroposofia Rudolf Steiner no Castelo de Koberwitz, na Silésia, é considerada o marco inicial da segunda fase da agricultura ecológica: o chamado método "biodinâmico". Steiner buscava potencializar as "forças cósmicas" da Terra, sobretudo ao aprofundar-se nos segredos da adubação. Entre os cerca de 100 participantes de suas palestras, um terço era composto por mulheres.
Após a morte dele, em 1925, foi um número expressivo de mulheres que, em Dornach (Suíça), Loverendale (Países Baixos), Stuttgart (oeste da Alemanha) e em propriedades rurais no leste da Alemanha, abraçou as ideias de Steiner e as colocou em prática na agricultura. Foi do trabalho dessas mulheres que surgiu, por fim, o selo de qualidade Demeter.
A maior pioneira daquela época foi a vienense Lili Kolisko (1889–1976). Lili vinha de uma família de artesãos; o conhecimento prático sobre materiais naturais lhe foi transmitido, por assim dizer, desde o berço. A isso somou-se a atuação científica proporcionada por seu futuro marido, Eugen Kolisko. Ele era estudante de medicina e trabalhava voluntariamente no hospital para feridos da Policlínica de Viena. Lili trabalhava no laboratório do local, realizando a coloração de esfregaços sanguíneos, o cultivo de bactérias e a microscopia celular. Foi seu marido quem a apresentou a Rudolf Steiner.
Eugen Kolisko e Steiner planejaram juntos a fundação da primeira Escola Waldorf em Stuttgart, em 1919. Lili juntou-se a eles e acabou se tornando uma aluna exemplar de Steiner. Ela realizou experimentos com animais doentes e despertou grande interesse com medicamentos derivados de substâncias secretadas pelo baço, bem como com a dinamização de substâncias através de agitação sistemática. Após a morte de Rudolf Steiner, ela dedicou suas pesquisas ao crescimento das plantas e aos órgãos.
Em 1936, Lili — que tinha ascendência judaica — fugiu dos nazistas para a Inglaterra. A cem quilômetros de Londres, em Berkshire, ela conseguiu estabelecer um pequeno "instituto biológico". Lá, desenvolveu o método de "imagem de ascensão" (*Steigbildmethode*), utilizado até hoje para medicamentos homeopáticos (glóbulos). Essas imagens tornam visíveis diferenças qualitativas em plantas, alimentos e substratos biológicos. Os estudos de Kolisko sobre esse método formam a base para o desenvolvimento da "agricultura biodinâmica". Seu método foi posteriormente aprimorado por Rudolf Hauschka, fundador da empresa "Wala-Arzneimittel", de orientação antroposófica.
Durante o regime nazista, a agricultura biodinâmica viveu inicialmente um período de florescimento devido à sua ligação com a terra e à abundância das colheitas; no entanto, logo caiu em desgraça por causa de sua fundamentação antroposófica, e materiais relacionados a "doutrinas secretas" foram confiscados.
Como uma terceira vertente dos conceitos de agricultura alternativa, desenvolveu-se a "agricultura orgânico-biológica", surgida em estreita relação com o movimento camponês suíço de valorização da terra natal (*Schweizerische Bauern-Heimatbewegung*) e em forte contraposição à agricultura convencional. Esse sistema de agricultura ecológica expandiu-se na Alemanha a partir da década de 1960. Foi nessa época que propriedades rurais começaram a adotar o modelo de produção orgânico-biológico e que, em 1971, fundou-se a associação "bio gemüse", da qual viria a surgir a Bioland. Entre os pioneiros dessa corrente, destacaram-se não apenas o frequentemente citado médico e microbiologista alemão Hans Peter Rusch e o fundador do movimento de jovens agricultores, Hans Müller, mas também a esposa deste último: Maria Müller (1894–1969).
Maria cresceu em uma fazenda na região de Emmental, na Suíça. Como a mais velha de sete filhos, ela trabalhava bastante na propriedade. Interessada em ciências agrárias, acabou frequentando uma escola de horticultura. Seu futuro marido, Hans, também era filho de agricultores, mas atuava como professor do ensino secundário; foi ele quem lhe ensinou os métodos de trabalho científico. Juntos, ambos se dedicavam apaixonadamente a estudos sobre o solo e as plantas.
O ponto de partida para a adesão de Maria a métodos "alternativos" na agricultura e na horticultura foi a questão do controle de pragas. O uso de defensivos químicos contrariava tudo o que ela havia aprendido sobre plantas e cultivo. Maria estudou as obras de Mina Hofstetter e, assim como ela, passou a priorizar a fertilidade saudável do solo como base para todo crescimento e desenvolvimento, experimentando também agentes naturais de controle de pragas, como a farinha de rocha. Suas pesquisas sobre processos bacterianos serviriam, mais tarde, de base para o desenvolvimento do fermento de húmus "Symbioflor", que tornou famoso Hans Peter Rusch.
Enquanto seu marido, Hans, adorava aparições públicas, Maria preferia atuar nos bastidores. Ela estudava os fundamentos e ele os traduzia em retórica — colhendo, assim, a fama. Maria tornou-se cofundadora da associação "Mulher e Democracia" e redatora da publicação *Schweizer Frauenblatt* (Jornal das Mulheres Suíças).
Por meio de palestras e cursos para mulheres do campo na "Escola de Economia Doméstica" (*Hausmutterschule*) em Möschberg, ela levava seu conhecimento diretamente às famílias rurais. Ministrava cursos para meninas de 12 a 15 anos sobre administração doméstica, horticultura e cuidados com bebês, sempre enfatizando uma alimentação integral e saudável — afastando-se da carne e do toucinho e voltando-se para legumes e alimentos crus. Fertilidade do solo, crescimento das plantas, nutrição e saúde: esses eram os pilares do ciclo que norteava toda a atuação de Maria Müller.
Após a morte de Maria, em 1969, ficou evidente que as descobertas fundamentais para o cultivo orgânico-biológico haviam partido dela. Seu marido, Hans, passou a apenas ministrar palestras; não houve mais pesquisas inovadoras.
As pioneiras dessas três correntes desenvolveram um conhecimento que, até hoje, constitui a base da agricultura ecológica. No entanto, embora todas elas fossem muito respeitadas em vida, não foram incluídas nos registros históricos. Caíram no esquecimento.
Essas pioneiras foram resgatadas do anonimato por um grupo de pesquisadoras e estudantes da Faculdade de Ciências Agrárias da Universidade de Göttingen. Elas buscaram contribuições escritas, relatórios de trabalho, diários de jardinagem e correspondências, além de entrarem em contato com familiares e se reunirem com testemunhas da época. Uma das fontes mais notáveis é um livro de visitas mantido por Mina Hofstetter ao longo de décadas. As pesquisadoras identificaram mais de 120 mulheres e traçaram o perfil detalhado de 51 delas. Eram mulheres que, com paixão, pesquisavam, experimentavam, produziam, publicavam e fundavam escolas, moldando assim a agricultura orgânica. A conclusão delas: quão atuais são o pensamento e a atuação dessas mulheres! Quão cedo elas alertaram para situações críticas na agricultura e na sociedade! Com que veemência advertiram sobre a degradação ambiental — já visível naquela época — e lutaram por caminhos e métodos alternativos!
As biografias dessas pioneiras demonstram que as atuais reivindicações do movimento climático não são, de forma alguma, novas. A perda de fertilidade do solo, a queda na produtividade das colheitas, a deterioração da qualidade dos alimentos e o rápido esgotamento dos recursos devido a intervenções desenfreadas na natureza — tudo isso já eram problemas por volta de 1920.
Fonte: https://www.emma.de/artikel/die-oeko-pionierinnen-339715
*é um sistema de medicina alternativa e integrativa que utiliza métodos naturais e estímulos ao estilo de vida saudável para promover a autocura do organismo. Visão holística: Trata a pessoa como um todo (corpo, mente e espírito), buscando a causa raiz do problema e não apenas o alívio dos sintomas. Capacidade de autocura: Acredita que o corpo possui um poder inato de se regenerar quando exposto a condições favoráveis. Abordagem preventiva: Foca na reeducação de hábitos e na prevenção de doenças crônicas. Práticas utilizadas: Fitoterapia: Uso de plantas medicinais e chás. Nutrição natural: Foco em alimentos funcionais e dietas equilibradas. Terapias corporais: Acupuntura, massagens e técnicas de relaxamento. Mudança de hábitos: Inclusão de exercícios físicos, meditação e controle do estresse.
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📅 28 de agosto
⏰ Das 17h às 20h
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