"

"Harmonizo meus pensamentos para criar com a visão". "Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível".

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Bioenergética da Agrofloresta Camponesa

 "(...) Mesmo que o espírito esteja calmo,
não deixe o corpo relaxar;
mas quando o corpo estiver relaxado,
não amoleça o espírito."
(Miyamoto Musashi)

por Oliver Blanco

 

A Agricultura Generativa é o entendimento amplo da vida do solo e da autonomia camponesa, contrapondo as narrativas recentes sobre agricultura regenerativa de interesses corporativos e as formas de doutrinação. Conecta a microbiologia, a história, a política, a cosmologia e a espiritualidade para sustentar que a matéria orgânica e o conhecimento do solo foram sistematicamente ocultados ou desvalorizados.

A agricultura regenerativa não é algo novo. O trabalho ecológico com agricultura e alimento sempre existiu e compreender os processos de geração da vida, não apenas de regeneração, é o que gera a autonomia econômica camponesa como eixo central do desenvolvimento e restauração do tecido social rural através da gestão dos recursos naturais (solo, árvores, micróbios, minerais, ecossistema etc.). O tema da matéria orgânica é complexo e o objetivo é preservar sua independência frente a interesses militares, políticos, ideológicos e de subsídios exógenos.

Agricultura ecológica camponesa em sistema de Agrofloresta, de “equilíbrio biológico dinâmico”, econômico (entre campo/cidade) e reguladora do Clima local, não deve ser conduzido por agendas externas, mas por um entendimento próprio do solo, da produção e da dignidade da profissão camponesa. A desvalorização social da figura do camponês é um risco para a manutenção da vida das pessoas na cidade, e parte deste processo mais amplo está na concentração fundiária e a perda de autonomia pela imposição de um modelo de negócio agrícola sintético, artificial à Natureza.

Maturana e Varela para diferenciar autopoiese de alopoiese, reforça que os sistemas vivos se organizam a partir de si mesmos e não apenas por intervenção externa. Essa distinção é levada para além da biologia, alcançando a dimensão social, psíquica e até espiritual, com a ideia de que a agricultura também envolve consciência, organização e relação comunitária. Defendemos que a compreensão do solo e da vida precisa ser profunda, traduzida de modo acessível e conectada ao cotidiano do campo. A ignorância sobre esses conceitos ajuda a manter visões empobrecidas sobre agricultura e natureza.


A matéria orgânica no solo é historicamente ocultada e destruída, apesar de já ser conhecida em práticas antigas e em experiências de camponeses e povos nativos – terra preta indígena (TPI), as Chinampas mexicana, são exemplos de Agriculturas para a Vida com sustentabilidade para as próximas gerações. Matéria orgânica é uma comunidade de micróbios, e não apenas um insumo; por isso, ela depende de vida, diversidade e manejo correto para produzir fertilidade e saúde no solo.

Modelos de alto rendimentos baseados em transgênicos, patentes e fórmulas industriais não trazem uma visão mais viva e integrada do solo. Até mesmo uma Agrofloresta em escala maior com “sucessão ordenada e dirigida num determinado sentido não é, de modo algum, universal nas condições naturais. Em áreas em que o meio físico apresenta caracteres extremos ou é sujeito a frequentes modificações em grande escala, pode acontecer que os organismos sejam incapazes de modificar o ambiente” (Odum). Manejar uma Agrofloresta reside em conhecer a maneira de como suspender a sucessão e manter em existência permanente a comunidade seral desejada. A referência, além dos livros antigos, é a microbiologia camponesa, o clima e à fenologia que serve para mostrar que há saberes mais ricos e úteis do que certas abordagens modernas centradas em interesses comerciais.

É muito recente que na história colonial, as perdas de territórios, culturas e saberes agrícolas, por causa direta de agentes religiosos, tratados, inquisições e a imposição de poder sobre terras e povos, devem receber críticas profundas as corporações, propagandas, algoritmos e redes sociais, vistos como instrumentos de destruição da autonomia e de disseminação de medo e ódio.

    Uma conversa sobre Bioenergética da Agrofloresta Camponesa se discuti a importância do autoaprovisionamento de matérias (“biopreparados artesanais”) para a produção de alimentos em equilíbrio entrópico/sintrópico na gestão da propriedade. Os Biopreparados (biofertilizantes) melhoram o equilíbrio nutricional da Agrofloresta em biossistemas diversificados: hortaliças, frutíferas, grãos, madeireiro e criação de animais, aumentando sua qualidade, a produção, a independência de fertilizantes químicos e maior resistência às mudanças climáticas. A violência política, a guerra e a manipulação ideológica a um mesmo padrão de dominação, e reforça que o tema da matéria orgânica não pode ser separado da disputa pelo poder. Compreender as práticas ancestrais atualizadas na nova matriz biotecnológica da agricultura e toda essa história no tempo/espaço/matéria é essencial para manter identidade, autonomia e o orgulho do profissional em agroecologia em novos horizontes de disseminação fértil da Agricultura para a Vida.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Agricultura, solo e microbiologia sustentável

  

"Não existe espaço para a agricultura na Natureza. É um tempo ultrassocial no metabolismo e na autopoiese com a Vida no Planeta, mas a agroindústria busca erradicar (dar fim, destruir) o Ultrassocial, a consciência de classe campesina, a ação da família camponesa". (Sebastião Pinheiro - Cartilha: O Ciclo da Matéria Orgânica Camponesa)

Setembro 14, 2026 às 16:23 h por Oliver Blanco

    A agricultura, o solo e a microbiologia possui uma relação íntima de centenas de anos que a ciência evolucionalista de Kozo a Lynn Margulis, cunhou de simbiogêneses ou endossimbiogênese sequencial, o que se pode incluir nesta linha do tempo a necessidade do trabalho comunitário na transformação do macaco ao homem (Engels) através da ajuda mútua em seculares práticas tradicionais – da sobrevivência da célula às de autogestão do ecossistema –, e a diversidade biológica na sustentação da produção alimentar, estrutura cimentante da ultrassociabilidade de uma sociedade, alicerce para diminuição de desigualdades entre povos.

    Toda essa teia de conexões são impactadas negativamente pela Indústria Química, principalmente por herbicidas (agrotóxicos) e assim buscamos por mais racionalidade em nossas atitudes, com a necessidade de reorganizar técnicas e políticas públicas para favorecer sistemas campesinos e a saúde do solo.

    Nosso princípio tem sido o de respeito total a todas as espécies viventes no Planeta. Pertencemos e somos parte da história evolutiva da Natureza. Tomando por exemplo espécies agricultoras, como as formigas, os cupins, as abelhas e um pequeno roedor do continente africano, espécies não humana que praticam formas de agricultura, cada uma com suas dietas e comportamentos específicos que sustentam suas comunidades.

    Pela idade evolutiva dessas espécies agricultoras, alguns grupos surgiram há cerca de 35 a 135 milhões de anos, enquanto abelhas e outros têm histórias distintas de dispersão geográfica. Seus exemplos mostraram especializações alimentares, espécies que só comem certos fungos utilizando plantas, recursos da Natureza para seu cultivo, e a capacidade dessas espécies de cultivar e armazenar alimento para toda comunidade.

    O papel da microbiologia do solo é mais antiga, uns 2,5 bilhões de anos, e desde então é fundamental reconhecer e estudar sua fermentação, o metabolismo energético em particular no solo em que se busca a produtividade agrícola. Sem microrganismos não haveria agricultura eficiente. Conhecemos uma fração ínfima da diversidade microbiana, por isso necessitamos de pesquisa e manejo, e de práticas estratégicas de alimentar e ativar o microbioma do solo para que ele trabalhe a favor da cultura, similar ao que fazem os cupins ou formigas e outros engenheiros ecológicos.

    Manejar o solo, um organismo vivo que respira, faz digestão, cresce e evolui, exigem práticas sustentáveis e o rompimento total e radical com a síntese química dos agrotóxicos e adubos químicos solúveis, e a manipulação, alteração de genes por transgenia (e sua atualização em técnica CRISPR/Cas9, tipo de edição genética que funciona como uma “tesoura molecular” capaz de cortar e modificar o DNA com alta precisão).

    O autoaprovisionamento planejado do uso de matéria orgânica doméstica e compostagem (incluindo a técnica do “Bokashi” autóctone e do “Nanopurim-microbiano” peletizado) como forma de alimentar microrganismos e melhorar a estrutura do solo, começa a entrar na rotina espiralada da gestão energética (termodinâmica) nos processos macroscópicos autômato da natureza local, que indicadores visuais de solo saudável começam a surgir como a presença de líquenes, flores coloridas e uma diversidade de plantas espontâneas na roça.

    Culturas em policultivos, e a diversificação e adequação da população de árvores na milpa (roça mexicana) reduzem os danos do Clima desregulado e promovem uma variedade de rizosferas microbianas benéficas.

    No mundo todo os perigosos herbicidas se tornaram um problema gravíssimo de contaminação ambiental. O glifosato possui origem histórica ligada a aplicações militares e industrialização, com efeitos amplos e duradouros no ambiente, pior deles, como resíduos nos alimentos in natura e concentrados em comidas ultraprocessadas. Debater seus impactos que inclui aumento de pragas e doenças por desequilíbrio ecológico, a perda da imunidade nos ecossistemas vivos, os riscos à saúde humana (como o autismo e intoxicações) precisa envolver toda sociedade em ampla campanha, regulação e alternativas práticas para reduzir ou melhor proibir o uso desses agroquímicos.

    A contaminação da água e de todos os manguezais do mundo é um alerta de máxima preocupação das comunidades internacionais. Análises cromatográficas em terrenos de manguezais mostraram presença significativa de agrotóxicos, refletindo o impacto da atividade agrícola nas zonas costeiras. Imagine em açudes, lagos e rios. O glifosato precisa ser debatido em todas as esferas Internacionais pois está afetando todos os ecossistemas que sustentam pescadores e camponeses que fornecem seus serviços ambientais.

    Sua cada vez maior presença indesejada nos ciclos biogeoquímicos dos Biomas ligada diretamente ao manejo do solo nas propriedades e a qualidade da água em todo processo deve ser alertado e combatido pois está trazendo consequências terríveis para a cadeia alimentar do Planeta.

    Agricultura é o bem maior em sabedoria humana. Seus aspectos sociais, culturais e políticos de transmissão intergeracional do conhecimento e de tecnologia agrícola é cultural de avós aos netos. O Brasil possui uma política pública de democratização dos alimentos com alta qualidade nutricional que tem sido um exemplo de proteção e respeito aos camponeses e ao público que se alimenta na cidade. A compra de alimentos dos camponeses para escolas, é mais que valorizar a produção local, é proteger esse patrimônio ultrassocial. Existe ainda desafios logísticos e de alfabetização dos produtores e consumidores.

    Conceito de "carbono azul", agronegócios regenerativos com modelos de financiamento que tendem a beneficiar grandes bancos em vez de organizações campesinas nos preocupa profundamente. Em toda parte, os melhores exemplos práticos surgem de experiências locais. Aonde ainda se encontra um comunismo primitivo, com um conjunto de relações sociais – prenhe de valores humanísticos – comunitários, coletivos e comunais…

    O capital precisa de territórios não capitalistas, ou seja, “a acumulação capitalista depende dos meios de produção que são produzidos de modo não capitalista”. Rosa analisou a formação das classes capitalistas ao analisar o campesinato o que ela denominou de comunismo primitivo. Que acumulou saberes e sintropia – entropia do seres vivos, reações inversas, simultaneamente com o Clima. Essa é a resistência, a luta pela manutenção da existência de nosso Planeta. 

 

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

As pioneiras da Agricultura Ecológica

  

Só agora vem à tona a dimensão do papel que as mulheres desempenharam no impulso ao desenvolvimento e à disseminação de uma agricultura alternativa. Elas foram esquecidas pela historiografia. Mesmo nomes de pioneiras como Mina Hofstetter, Lilli Kolisko ou Maria Müller são pouco conhecidos. Isso precisa mudar.

Por Annika Ross – 24 de agosto de 2022

Pesquisadoras de plantas, especialistas em compostagem, criadoras de sementes, biólogas, jardineiras. Todas as mulheres que foram as primeiras a estar preparadas para repensar a agricultura – em harmonia com a natureza. Onde estaria hoje a agricultura orgânica se essas mulheres não tivessem existido?

Já a partir do final da Idade Média (século XV, 1453), as mulheres começaram a pensar sobre a fertilidade do solo. Porquê? Porque elas tinham sua família para alimentar, e também seu próprio laboratório: seu jardim. Todas as 12.000 culturas comuns hoje finalmente passaram pelo jardim. As mulheres do final da Idade Média mexeram em seus jardins, cruzaram plantas, adaptaram a semente à respectiva natureza do solo, tentaram torná-lo mais fértil sem expô-la. Elas eram dependentes da fertilidade contínua, a fim de ser capaz de colocar comida na mesa para suas famílias.

Ao contrário dos homens que experimentaram em público, as mulheres permaneceram escondidas em seus jardins. A reputação de saber muito sobre as plantas poderia ter sido mortal para elas. Um pouco de conhecimento no herbalismo por si só foi suficiente para trazer as mulheres para a estaca como bruxas. O próprio jardim das mulheres era o seu refúgio e muitas vezes uma das poucas maneiras de ganhar algo de forma produtiva: nutrição, cura, cuidado. As mulheres tiveram que lutar por um “espaço para si mesmas” em todas as épocas – um jardim era muitas vezes a seus pés. E ele era o núcleo da "agricultura ecológica".

"Agricultura ecológica" é um termo abrangente que engloba diversos conceitos de manejo da terra surgidos a partir da década de 1920 na Suíça, na Alemanha e na Inglaterra. Todos eles defendem uma visão holística que integra ser humano, planta, animal e natureza, nascida dos movimentos de reforma do final do século XIX. O movimento de reforma da vida (*Lebensreform*) também preconizava um estilo de vida em harmonia com a natureza, alimentação saudável, vida no campo, autossuficiência em terra própria, medicina natural (*naturopatia) e uma relação mais livre com o corpo. Tudo isso surgiu como reação às profundas transformações sociais decorrentes da industrialização e da urbanização. O impulso motriz era a necessidade de dar sentido a uma existência marcada pela alienação e de vivenciar a si mesmo — corpo e mente — por meio de um modo de vida condizente com esses ideais. Entre os pioneiros mais conhecidos estão Rudolf Steiner e Hans Müller. Não é de surpreender que, nesse contexto, as mulheres também quisessem redefinir os papéis de gênero; afinal, o terreno para isso já havia sido preparado pelo movimento feminista da segunda metade do século XIX (1848). Foram fundados os primeiros institutos, faculdades e escolas voltados para a educação feminina e, por fim, conquistou-se também o acesso geral das mulheres às universidades.

Muitas das pioneiras da ecologia frequentaram as recém-criadas escolas de horticultura, tornaram-se jardineiras profissionais ou fundaram elas mesmas centros de formação, como os assentamentos femininos de Loheland (1919) ou Schwarzerden (1923), na região de Rhön. Essas mulheres queriam trabalhar abertamente com conceitos alternativos e compartilhar suas conquistas. E, excepcionalmente, elas finalmente tinham uma vantagem de "jogar em casa": a agricultura ecológica, em seus primórdios, era mais ou menos uma *terra incognita* — um território científico inexplorado, sem terminologias estabelecidas, princípios fundamentais ou métodos de pesquisa reconhecidos.

Como é possível melhorar a fertilidade do solo? Como posso alimentar melhor a família? As mulheres também se beneficiaram do fato de que suas pesquisas eram vistas como algo marginal. Nas ciências agrárias, dominadas por homens, a agricultura orgânica não era considerada ciência, mas sim ideologia. Consequentemente, as mulheres enfrentavam menos concorrência masculina e menos posturas de autopromoção.

Historicamente, a primeira fase da agricultura ecológica é conhecida como "agricultura natural". Sua grande pioneira foi Mina Hofstetter (1883–1967). Nascida em Stilli, no cantão de Argóvia, filha de uma família pobre de pescadores e jangadeiros, ela sofreu com doenças graves durante a infância. O jardim desempenhou um papel central em sua vida, ajudando a sustentar a família durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. Além de hortaliças, Mina cultivava cereais em seu jardim e realizava experimentos com cobertura do solo, compostagem, rotação de culturas e ciclos lunares. Ela rejeitava o uso de agrotóxicos, alertava já naquela época para a acidificação dos solos e defendia a ideia de "solo saudável, plantas saudáveis"

Mina estudou as obras de Raoul Francé, um especialista em solos famoso na época; ela defendia o cultivo de cercas-vivas e arbustos para atrair pássaros, recomendava não remover ervas e plantas rasteiras e utilizava água argilosa, infusões de ervas e lama de rocha como produtos de pulverização na fruticultura. Graças ao plantio em linhas e ao transplante de plantas que apresentavam espigas pesadas e grandes — medindo entre 30 e 40 centímetros —, ela conseguiu aumentar enormemente a produção de grãos. Isso despertou o interesse dos agricultores. Hofstetter expôs suas espigas em feiras e recomendou a adoção de práticas agrícolas de estilo hortícola nas encostas mais íngremes. Em 1928, publicou seu primeiro manifesto, intitulado "Brot" (Pão), sob o pseudônimo — assumidamente feminino — de Gertrud Stauffacher.

Não foi apenas o subtítulo — "A solução da questão dos cereais pela mulher, livre de monopólios" — que provocou reações, mas também o conteúdo da obra. Mina, ela própria vegetariana, defendia uma agricultura sem criação de animais e o cultivo em canteiros, práticas adotadas na China há mais de 6.000 anos. Ela criticava os subsídios concedidos aos agricultores ricos e exigia do governo a disponibilização de terras para cultivo pelas mulheres, especialmente para as mães. A partir de 1929, a pioneira passou a ministrar cursos de agricultura e horticultura orgânicas em sua propriedade, a fazenda Stuhlen, em Ebmatingen, e, em 1936, fundou o centro de ensino "Seeblick". Posteriormente, foi convidada a participar de eventos por toda a Europa: na Áustria e na Dinamarca, no Dia Mundial da Paz em Paris e no congresso da associação internacional de mulheres em Viena.

A partir da década de 1930, Mina publicou artigos em periódicos ligados aos movimentos de reforma de vida (*Lebensreform*) e de vegetarianismo. Ela defendia constantemente que a agricultura deveria priorizar o cultivo de cereais em detrimento da pecuária, argumentando que essa abordagem permitiria alimentar um número muito maior de pessoas.

Foi em sua propriedade que, em 1947, fundou-se a "Cooperativa de Agricultura Biológica" (hoje: Bioterra). Sistemas agrícolas surgidos na Europa após a Segunda Guerra Mundial — e que perduram até hoje — basearam-se nas ideias de Mina. A palestra "Curso de Agricultura", ministrada em 1924 pelo guru da antroposofia Rudolf Steiner no Castelo de Koberwitz, na Silésia, é considerada o marco inicial da segunda fase da agricultura ecológica: o chamado método "biodinâmico". Steiner buscava potencializar as "forças cósmicas" da Terra, sobretudo ao aprofundar-se nos segredos da adubação. Entre os cerca de 100 participantes de suas palestras, um terço era composto por mulheres.

Após a morte dele, em 1925, foi um número expressivo de mulheres que, em Dornach (Suíça), Loverendale (Países Baixos), Stuttgart (oeste da Alemanha) e em propriedades rurais no leste da Alemanha, abraçou as ideias de Steiner e as colocou em prática na agricultura. Foi do trabalho dessas mulheres que surgiu, por fim, o selo de qualidade Demeter.

A maior pioneira daquela época foi a vienense Lili Kolisko (1889–1976). Lili vinha de uma família de artesãos; o conhecimento prático sobre materiais naturais lhe foi transmitido, por assim dizer, desde o berço. A isso somou-se a atuação científica proporcionada por seu futuro marido, Eugen Kolisko. Ele era estudante de medicina e trabalhava voluntariamente no hospital para feridos da Policlínica de Viena. Lili trabalhava no laboratório do local, realizando a coloração de esfregaços sanguíneos, o cultivo de bactérias e a microscopia celular. Foi seu marido quem a apresentou a Rudolf Steiner.

Eugen Kolisko e Steiner planejaram juntos a fundação da primeira Escola Waldorf em Stuttgart, em 1919. Lili juntou-se a eles e acabou se tornando uma aluna exemplar de Steiner. Ela realizou experimentos com animais doentes e despertou grande interesse com medicamentos derivados de substâncias secretadas pelo baço, bem como com a dinamização de substâncias através de agitação sistemática. Após a morte de Rudolf Steiner, ela dedicou suas pesquisas ao crescimento das plantas e aos órgãos.

Em 1936, Lili — que tinha ascendência judaicafugiu dos nazistas para a Inglaterra. A cem quilômetros de Londres, em Berkshire, ela conseguiu estabelecer um pequeno "instituto biológico". Lá, desenvolveu o método de "imagem de ascensão" (*Steigbildmethode*), utilizado até hoje para medicamentos homeopáticos (glóbulos). Essas imagens tornam visíveis diferenças qualitativas em plantas, alimentos e substratos biológicos. Os estudos de Kolisko sobre esse método formam a base para o desenvolvimento da "agricultura biodinâmica". Seu método foi posteriormente aprimorado por Rudolf Hauschka, fundador da empresa "Wala-Arzneimittel", de orientação antroposófica.

Durante o regime nazista, a agricultura biodinâmica viveu inicialmente um período de florescimento devido à sua ligação com a terra e à abundância das colheitas; no entanto, logo caiu em desgraça por causa de sua fundamentação antroposófica, e materiais relacionados a "doutrinas secretas" foram confiscados.

Como uma terceira vertente dos conceitos de agricultura alternativa, desenvolveu-se a "agricultura orgânico-biológica", surgida em estreita relação com o movimento camponês suíço de valorização da terra natal (*Schweizerische Bauern-Heimatbewegung*) e em forte contraposição à agricultura convencional. Esse sistema de agricultura ecológica expandiu-se na Alemanha a partir da década de 1960. Foi nessa época que propriedades rurais começaram a adotar o modelo de produção orgânico-biológico e que, em 1971, fundou-se a associação "bio gemüse", da qual viria a surgir a Bioland. Entre os pioneiros dessa corrente, destacaram-se não apenas o frequentemente citado médico e microbiologista alemão Hans Peter Rusch e o fundador do movimento de jovens agricultores, Hans Müller, mas também a esposa deste último: Maria Müller (1894–1969).

Maria cresceu em uma fazenda na região de Emmental, na Suíça. Como a mais velha de sete filhos, ela trabalhava bastante na propriedade. Interessada em ciências agrárias, acabou frequentando uma escola de horticultura. Seu futuro marido, Hans, também era filho de agricultores, mas atuava como professor do ensino secundário; foi ele quem lhe ensinou os métodos de trabalho científico. Juntos, ambos se dedicavam apaixonadamente a estudos sobre o solo e as plantas.

O ponto de partida para a adesão de Maria a métodos "alternativos" na agricultura e na horticultura foi a questão do controle de pragas. O uso de defensivos químicos contrariava tudo o que ela havia aprendido sobre plantas e cultivo. Maria estudou as obras de Mina Hofstetter e, assim como ela, passou a priorizar a fertilidade saudável do solo como base para todo crescimento e desenvolvimento, experimentando também agentes naturais de controle de pragas, como a farinha de rocha. Suas pesquisas sobre processos bacterianos serviriam, mais tarde, de base para o desenvolvimento do fermento de húmus "Symbioflor", que tornou famoso Hans Peter Rusch.

Enquanto seu marido, Hans, adorava aparições públicas, Maria preferia atuar nos bastidores. Ela estudava os fundamentos e ele os traduzia em retórica — colhendo, assim, a fama. Maria tornou-se cofundadora da associação "Mulher e Democracia" e redatora da publicação *Schweizer Frauenblatt* (Jornal das Mulheres Suíças).

Por meio de palestras e cursos para mulheres do campo na "Escola de Economia Doméstica" (*Hausmutterschule*) em Möschberg, ela levava seu conhecimento diretamente às famílias rurais. Ministrava cursos para meninas de 12 a 15 anos sobre administração doméstica, horticultura e cuidados com bebês, sempre enfatizando uma alimentação integral e saudável — afastando-se da carne e do toucinho e voltando-se para legumes e alimentos crus. Fertilidade do solo, crescimento das plantas, nutrição e saúde: esses eram os pilares do ciclo que norteava toda a atuação de Maria Müller.

Após a morte de Maria, em 1969, ficou evidente que as descobertas fundamentais para o cultivo orgânico-biológico haviam partido dela. Seu marido, Hans, passou a apenas ministrar palestras; não houve mais pesquisas inovadoras.

As pioneiras dessas três correntes desenvolveram um conhecimento que, até hoje, constitui a base da agricultura ecológica. No entanto, embora todas elas fossem muito respeitadas em vida, não foram incluídas nos registros históricos. Caíram no esquecimento.

Essas pioneiras foram resgatadas do anonimato por um grupo de pesquisadoras e estudantes da Faculdade de Ciências Agrárias da Universidade de Göttingen. Elas buscaram contribuições escritas, relatórios de trabalho, diários de jardinagem e correspondências, além de entrarem em contato com familiares e se reunirem com testemunhas da época. Uma das fontes mais notáveis ​​é um livro de visitas mantido por Mina Hofstetter ao longo de décadas. As pesquisadoras identificaram mais de 120 mulheres e traçaram o perfil detalhado de 51 delas. Eram mulheres que, com paixão, pesquisavam, experimentavam, produziam, publicavam e fundavam escolas, moldando assim a agricultura orgânica. A conclusão delas: quão atuais são o pensamento e a atuação dessas mulheres! Quão cedo elas alertaram para situações críticas na agricultura e na sociedade! Com que veemência advertiram sobre a degradação ambiental — já visível naquela época — e lutaram por caminhos e métodos alternativos!

As biografias dessas pioneiras demonstram que as atuais reivindicações do movimento climático não são, de forma alguma, novas. A perda de fertilidade do solo, a queda na produtividade das colheitas, a deterioração da qualidade dos alimentos e o rápido esgotamento dos recursos devido a intervenções desenfreadas na natureza — tudo isso já eram problemas por volta de 1920.

Fonte: https://www.emma.de/artikel/die-oeko-pionierinnen-339715

*é um sistema de medicina alternativa e integrativa que utiliza métodos naturais e estímulos ao estilo de vida saudável para promover a autocura do organismo. Visão holística: Trata a pessoa como um todo (corpo, mente e espírito), buscando a causa raiz do problema e não apenas o alívio dos sintomas. Capacidade de autocura: Acredita que o corpo possui um poder inato de se regenerar quando exposto a condições favoráveis. Abordagem preventiva: Foca na reeducação de hábitos e na prevenção de doenças crônicas. Práticas utilizadas: Fitoterapia: Uso de plantas medicinais e chás. Nutrição natural: Foco em alimentos funcionais e dietas equilibradas. Terapias corporais: Acupuntura, massagens e técnicas de relaxamento. Mudança de hábitos: Inclusão de exercícios físicos, meditação e controle do estresse.

🌱 CONVITE ESPECIAL | RODA DE DEBATE E TROCA DE IDEIAS 🌱

A Feira Popular da Agricultura Familiar convida toda a comunidade para uma roda de conversa com Oliver Naves Blanco, em um encontro de saberes, experiências e reflexões sobre os caminhos que constroem e mantêm vivos os nossos territórios.


🌿 Tema: TERRITÓRIOS VIVOS — As pioneiras da agricultura ecológica

A conversa propõe um olhar sobre a história da construção da Agroecologia e sobre a importância de reconhecer as diversas experiências, trajetórias e pessoas que contribuíram para o desenvolvimento e a disseminação das práticas ecológicas de cultivo e cuidado com a terra.

Também serão compartilhadas vivências e experiências de Agrofloresta em Ribeirão Preto, refletindo sobre esses espaços como territórios de saúde, alimentação, cuidados humanos e construção coletiva. 🌳🥕🌻

📅 28 de agosto
⏰ Das 17h às 20h
📍 Feira Popular da Agricultura Familiar
Rua Conselheiro Dantas, 964 — Vila Tibério
Ribeirão Preto/SP

✨ Venha participar deste encontro de saberes, trocas e construção de futuros mais justos e sustentáveis!

🌱 Agroecologia • Saúde • Alimentação • Cuidados • Comunidade

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