"Não existe espaço para a agricultura na Natureza. É um tempo ultrassocial no metabolismo e na autopoiese com a Vida no Planeta, mas a agroindústria busca erradicar (dar fim, destruir) o Ultrassocial, a consciência de classe campesina, a ação da família camponesa". (Sebastião Pinheiro - Cartilha: O Ciclo da Matéria Orgânica Camponesa)
Setembro 14, 2026 às 16:23 h por Oliver Blanco
A agricultura, o solo e a microbiologia possui uma relação íntima de centenas de anos que a ciência evolucionalista de Kozo a Lynn Margulis, cunhou de simbiogêneses ou endossimbiogênese sequencial, o que se pode incluir nesta linha do tempo a necessidade do trabalho comunitário na transformação do macaco ao homem (Engels) através da ajuda mútua em seculares práticas tradicionais – da sobrevivência da célula às de autogestão do ecossistema –, e a diversidade biológica na sustentação da produção alimentar, estrutura cimentante da ultrassociabilidade de uma sociedade, alicerce para diminuição de desigualdades entre povos.
Toda essa teia de conexões são impactadas negativamente pela Indústria Química, principalmente por herbicidas (agrotóxicos) e assim buscamos por mais racionalidade em nossas atitudes, com a necessidade de reorganizar técnicas e políticas públicas para favorecer sistemas campesinos e a saúde do solo.
Nosso princípio tem sido o de respeito total a todas as espécies viventes no Planeta. Pertencemos e somos parte da história evolutiva da Natureza. Tomando por exemplo espécies agricultoras, como as formigas, os cupins, as abelhas e um pequeno roedor do continente africano, espécies não humana que praticam formas de agricultura, cada uma com suas dietas e comportamentos específicos que sustentam suas comunidades.
Pela idade evolutiva dessas espécies agricultoras, alguns grupos surgiram há cerca de 35 a 135 milhões de anos, enquanto abelhas e outros têm histórias distintas de dispersão geográfica. Seus exemplos mostraram especializações alimentares, espécies que só comem certos fungos utilizando plantas, recursos da Natureza para seu cultivo, e a capacidade dessas espécies de cultivar e armazenar alimento para toda comunidade.
O papel da microbiologia do solo é mais antiga, uns 2,5 bilhões de anos, e desde então é fundamental reconhecer e estudar sua fermentação, o metabolismo energético em particular no solo em que se busca a produtividade agrícola. Sem microrganismos não haveria agricultura eficiente. Conhecemos uma fração ínfima da diversidade microbiana, por isso necessitamos de pesquisa e manejo, e de práticas estratégicas de alimentar e ativar o microbioma do solo para que ele trabalhe a favor da cultura, similar ao que fazem os cupins ou formigas e outros engenheiros ecológicos.
Manejar o solo, um organismo vivo que respira, faz digestão, cresce e evolui, exigem práticas sustentáveis e o rompimento total e radical com a síntese química dos agrotóxicos e adubos químicos solúveis, e a manipulação, alteração de genes por transgenia (e sua atualização em técnica CRISPR/Cas9, tipo de edição genética que funciona como uma “tesoura molecular” capaz de cortar e modificar o DNA com alta precisão).
O autoaprovisionamento planejado do uso de matéria orgânica doméstica e compostagem (incluindo a técnica do “Bokashi” autóctone e do “Nanopurim-microbiano” peletizado) como forma de alimentar microrganismos e melhorar a estrutura do solo, começa a entrar na rotina espiralada da gestão energética (termodinâmica) nos processos macroscópicos autômato da natureza local, que indicadores visuais de solo saudável começam a surgir como a presença de líquenes, flores coloridas e uma diversidade de plantas espontâneas na roça.
Culturas em policultivos, e a diversificação e adequação da população de árvores na milpa (roça mexicana) reduzem os danos do Clima desregulado e promovem uma variedade de rizosferas microbianas benéficas.
No mundo todo os perigosos herbicidas se tornaram um problema gravíssimo de contaminação ambiental. O glifosato possui origem histórica ligada a aplicações militares e industrialização, com efeitos amplos e duradouros no ambiente, pior deles, como resíduos nos alimentos in natura e concentrados em comidas ultraprocessadas. Debater seus impactos que inclui aumento de pragas e doenças por desequilíbrio ecológico, a perda da imunidade nos ecossistemas vivos, os riscos à saúde humana (como o autismo e intoxicações) precisa envolver toda sociedade em ampla campanha, regulação e alternativas práticas para reduzir ou melhor proibir o uso desses agroquímicos.
A contaminação da água e de todos os manguezais do mundo é um alerta de máxima preocupação das comunidades internacionais. Análises cromatográficas em terrenos de manguezais mostraram presença significativa de agrotóxicos, refletindo o impacto da atividade agrícola nas zonas costeiras. Imagine em açudes, lagos e rios. O glifosato precisa ser debatido em todas as esferas Internacionais pois está afetando todos os ecossistemas que sustentam pescadores e camponeses que fornecem seus serviços ambientais.
Sua cada vez maior presença indesejada nos ciclos biogeoquímicos dos Biomas ligada diretamente ao manejo do solo nas propriedades e a qualidade da água em todo processo deve ser alertado e combatido pois está trazendo consequências terríveis para a cadeia alimentar do Planeta.
Agricultura é o bem maior em sabedoria humana. Seus aspectos sociais, culturais e políticos de transmissão intergeracional do conhecimento e de tecnologia agrícola é cultural de avós aos netos. O Brasil possui uma política pública de democratização dos alimentos com alta qualidade nutricional que tem sido um exemplo de proteção e respeito aos camponeses e ao público que se alimenta na cidade. A compra de alimentos dos camponeses para escolas, é mais que valorizar a produção local, é proteger esse patrimônio ultrassocial. Existe ainda desafios logísticos e de alfabetização dos produtores e consumidores.
Conceito de "carbono azul", agronegócios regenerativos com modelos de financiamento que tendem a beneficiar grandes bancos em vez de organizações campesinas nos preocupa profundamente. Em toda parte, os melhores exemplos práticos surgem de experiências locais. Aonde ainda se encontra um comunismo primitivo, com um conjunto de relações sociais – prenhe de valores humanísticos – comunitários, coletivos e comunais…
O capital precisa de territórios não capitalistas, ou seja, “a acumulação capitalista depende dos meios de produção que são produzidos de modo não capitalista”. Rosa analisou a formação das classes capitalistas ao analisar o campesinato o que ela denominou de comunismo primitivo. Que acumulou saberes e sintropia – entropia do seres vivos, reações inversas, simultaneamente com o Clima. Essa é a resistência, a luta pela manutenção da existência de nosso Planeta.