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'Ofereço-me para cooperar com amor a fim de compartilhar a abundância de meu coração.'
'Comunico-me sem apegos e descubro a harmonia de evoluir na Terra.'

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Clubes 4-S


Tempos atuais.. Tempos de luta, tempos da autoconsciência do Biopoder Camponês.
edição: Oliver Blanco

"Nas universidade norte-americanas atualmente (Rutgers University) se ensina aos estudantes misturar diferentes amostras de solo agrícola a fertilizantes químicos solúveis, que depois são incubados a temperatura de 37ºC durante duas semanas e analisados para demonstrar como os fertilizantes químicos solúveis destroem a atividade enzimática nesses solos. Essa é a "transição" de matriz tecnológica que na periferia induzida e manipulada se transformou em discurso impotente, mas preparando as mentes para o "novo" biotecnológico das corporações. Viva a Agroecologia!"

Saúde no Solo (Biopoder Camponês) versus Agronegócio - Sebastião Pinheiro



Discursos sobre a juventude rural participante de Clubes 4-S
(1959-1977)1

Claiton Mordo da Silva, Mestre em História — UFSC

[...] A teletela recebia e transmitia simultaneamente. Qualquer barulhoque Winston fizesse, mais alto que um cochicho, seria captado peloaparelho; além do mais, enquanto permanecesse no campo de visão da placa, poderia ser visto também. Naturalmente, não havia jeito de determinar se, num dado momento, o cidadão estava sendo vigiado ou não. Impossível saber com que freqüência, ou que periodicidade, a Polícia do Pensamento ligava para a casa deste ou daquele indivíduo. Era concebível, mesmo, que observasse todo mundo ao mesmo tempo. A realidade é que podia ligar determinada linha no momento que desejasse. Tinha-se que viver — e vivia-se por hábito transformado em instinto — na suposição de que cada som era ouvido e cada movimento examinado, salvo quando feito no escuro (GEORGE ORWELL, 1984).

No regime político imaginado (?) por Orwell, na década de 50, a sombra do panóptico de Bentham encobria Londres. Pela "teletela", a Polícia do Pensamento poderia vigiar sem ser vista, tal como imaginado pela arquitetura do panóptico. Para Orwell, o cidadão — cada vez com menor privacidade — sentia-se vigiado a todo o momento e em todo lugar, inclusive em sua própria casa.
Tornou-se hábito para Winston (o personagem principal desta "ficção") esquivar-se do olhar do Grande Irmão (o responsável pela permanência do regime) espalhado em grandes cartazes ao longo da cidade, e cujo olhar acompanhava as pessoas em todo o momento; tornou-se hábito esquivar-se do aparato de vigilância para cometer "crimes" de questionamento do regime; tornou-se hábito ser astuto e não deixar vestígios que o pudessem comprometer; enfim, tornou-se hábito para este desviante, tentar permanecer vivo.
O Grande Irmão e todo o seu aparato vigiam os "indivíduos", de forma a controlar as ações, discipliná-los. Mas mesmo neste sistema ocorrem "desvios" de conduta ao longo do processo. Porém, se detectado este desvio de comportamento, ocorre a punição (ou melhor, a "pulverização") do "indivíduo". A punição nesta sociedade vigilante, que procura corrigir (talvez eliminar neste caso) os comportamentos desviantes, é um discurso vampirizado do panóptico de Bentham por vários segmentos (instituições) da sociedade moderna. Mas mesmo na sociedade moderna, a conduta"errônea", o desvio também fez parte de sua história. Por isso, foi necessário empreender técnicas de controle.
Neste artigo pretendo discutir sobre a proposta dos Clubes4-S (seu discurso) e as estratégias utilizadas para a formação e controle de um novo agricultor através desses trabalhos. Considero operíodo entre 1959 e 1977, a partir da publicação de manuais e relatórios tanto em nível nacional como regional.

Agricultura, juventude e os Clubes 4-S

Os Clubes 4-S estiveram inseridos nas estratégias de modernização da produção agrícola brasileira', e tiveram seu auge em Santa Catarina na década de 70, através da ACARESC (Associação de Crédito e Extensão Rural de Santa Catarina). A sigla 4-S significa Saber, Sentir, Servir e Saúde, ou seja, conforme o juramento prestado pelos jovens que fizeram parte desses clubes, essas palavras adquirem a seguinte tonalidade:

Minha cabeça para SABER claramente
Meu coração para SENTIR maior lealdade
Minhas mãos para SERVIR mais e melhor
Minha SAÚDE para uma vida mais sã
Com meus 4-S, meu lar, minha comunidade e minha Pátria3.

Estes Clubes são "filhos adotivos" da ACARESC, empresa responsável pela implantação e desenvolvimento dos trabalhos de Extensão Rural no Estado de Santa Catarina. A matriz destes clubes é norte-americana (os Clubes 4-H's), e pretendeu servir como um elo entre o conhecimento científico e sua aplicação na agricultura "arcaica"3.
A agricultura representou no Brasil, a partir da década de 50, um "entrave ao progresso". Dentro dessa lógica, foi necessário investir em tecnologias, foi preciso modernizar mas, sobretudo, criou-se uma necessidade de formar um novo sujeito, um outro agricultor, apto para a lida com as novas técnicas e tecnologias. No discurso da ACARESC se fez presente a idéia de que é o jovem que leva a modernidade ao campo. Verdadeiros slogans circulavam no discurso que tratava do jovem rural, como por exemplo, "os jovensaprendem mais fácil e rapidamente", ou que "a juventude deseja mudar e está disposta a provar as coisas novas", ou ainda que "os jovens tem à sua frente muitos anos produtivos"4. Esse era o discurso articulado e autorizado no início da década de 60 e que perpassou esta década, propagado por sujeitos que tiveram como metalevar adiante idéias de que o jovem rural é o sujeito capaz de saber, de aprender e intervir para mudar a realidade do campo. A juventude rural brasileira também se constituiu como metáfora de mudança:

Dada a evolução dos anos 60, dentro da família o jovem assume umlugar de destaque, fazendo com que suas idéias sejam aceitas. Chegando a mudança no meio rural facilita a inovação dentro do trabalho dospais pelas mensagens que o filho leva a família, devido a sua voz ativadentro de sua organização primária. Preocupando-se com o futuro da humanidade, no Brasil desenvolve-se uma campanha global de evolução. Dentro do estado, sem dúvida pode-se incluir entre os trabalhos educativos o trabalho com juventude rural5.

Para o discurso extensionista, o jovem possuia "voz ativa" dentro da organização familiar, e dessa forma podia constituir-se como instrumento privilegiado para difundir novas técnicas e tecnologias. O discurso caracterizava a figura do jovem a partir deacontecimentos que marcaram a década de 60 (O "maio de 68" francês, o festival de Woodstock, por exemplo), ou seja, o jovemera uma figura que estava se transformando, que estava "evoluindo", sendo aceito (incluído nos debates familiares pelas suas idéias) e por isso passou a ser caracterizado como agente de mudança pela Extensão Rural.
Não considero a Extensão Rural e, por conseqüência, os Clubes 4-S, como um único discurso, e sim vários discursos que permeiam esse instrumento extensionista. Posso focalizar em vários momentos o discurso modernizador, mas muitos outros discursos se relacionam na formação desses jovens. Aliados a práticas discursivas (o moderno, a higiene, por exemplo), estão as práticas "não-discursivas" (como por exemplo, as instituições, os processos econômicos e sociais, as formas de comportamento, os sistemas de normas, etc.), para buscar as "condições de emergência" de um discurso. Afinal, ao analisar o discurso extensionista, não posso considerá-lo como uma totalidade, como um centro que determina seu funcionamento e o funcionamento de outros discursos e práticas não-discursivas6. O discurso da Extensão Rural se apropriado significado de vários outros discursos como uma de suas condições de existência.

Os Clubes 4-S e sua proposta

O Clube de Trabalho 4-S foi o instrumento extensionista que objetivava o trabalho com a juventude rural. Agrupava os jovens rurais de ambos os sexos, os quais anualmente escolhiam uma diretoria. Enfim, constituiu-se num agrupamento onde os jovens encontravam "oportunidades para desenvolverem suas personalidades", através de atividades sociais (palestras, demonstrações, exposições, excursões, festas, etc.) e pela aquisição de "conhecimentos agropastoris e de economia doméstica"7. Em julho de 1952, na localidade de Igrejinha, município de Rio Pomba (MG) foi organizado o primeiro Clube 4-S no Brasil, e essa data (quinze de julho) passou a ser comemorada como o Dia Nacional dos Clubes deTrabalho 4-S.

A ABCAR (Associação Brasileira de Crédito e Assistência Rural), no mês de julho de 1959 procurou controlar as experiências até então realizadas com Clubes 4-S no Brasil. Essa não era a única forma de trabalho com juventude do campo no Brasil, e, portanto, para constituir-se como legítimo "tutor" desses, necessitava homogeneizar suas ações. Nesse período, além dos Clubes 4-S, eram realizados trabalhos com Clubes sob orientação do Serviço de Informação Agrícola do Ministério da Agricultura. Essas agremiações distinguiam-se dos 4-S por serem vinculadas aos estabelecimentosde ensino rural, enquanto que estes eram ligados aos Serviços de Extensão Rural e desenvolviam projetos nas propriedades onde viviam.
Dentro das experiências realizadas com os clubes ao longoda década de 50, exigiu-se, a elaboração de um manual, de forma a orientar e uniformizar os trabalhos com a juventude rural. Como coloquei anteriormente, esse material foi impresso em julho de 1959, e trouxe muito daquilo que procurou ser realizado com os Clubes4-S. O manual procurou definir uma "filosofia" e os objetivos do trabalho, bem como sua justificativa. A base "filosófica" desse primeiro material produzido foi mantida no caso catarinense, como pode-se observar na reedição do ano de 1973, em que os textos foram modificados, porém o conteúdo continuou fiel ao original de 1959.
Na introdução, o manual se colocou como "um guia geral e suas recomendações (devem ser) adaptadas às condições locais específicas de cada Estado"9. Ao produzir um material em escala nacional (no caso da ABCAR) ou estadual (no caso da ACARESC), como forma de orientar os trabalhos quartoessistas, surgiu a necessidade de normatizar as atividades relacionadas aos Clubes 4-S, objetivando o mínimo possível de improviso. Também procurou-se qualificar os locutores do discurso:

Desde 1953, quando se iniciou no Brasil o movimento de Clubes 4-S(Saber, Sentir, Servir e Saúde), não foi possível difundir, em escalanacional, sobre os princípios fundamentais, a filosofia e as normasdesse trabalho. Os técnicos que, nas Filiadas à ABCAR, se dedicam aestas atividades, tem sentido tal lacuna e manifestado interesse emdispor de elementos seguros de orientação que facilitem a expansãodos programas relativos à juventude rural10.

Assim segue o manual, orientando as ações que se baseiam na "experiência brasileira até agora adquirida [...]"11. Porém, com todosos relatos sobre a influência e o interesse norte americano nos trabalhos com juventude rural (Fundações Rockfeller, Ford, etc.), no início da década de 60 pode-se observar que a experiência brasileira "necessitava" ser acompanhada de perto. Assim, as orientações da Extensão Rural, esboçando caminhos para a modernidade no campo, traziam consigo a característica e a necessidade de homogeneidade:

Terão, assim, todas as Filiadas o mesmo instrumento básico para o trabalho de Clubes 4-S. É licito esperar que, adotando princípios e diretrizes idênticos, os programas tenham desenvolvimento uniforme, se tornem mais fortes, recebam mais rapidamente novas idéias, obtendo assim, em menos tempo, o necessário conhecimento, respeito e cooperação do público12.

O trabalho de Clubes 4-S constituiu-se como parte integrante de um Serviço de Extensão Rural, visando preparar a juventude para "cumprir os seus deveres para com a família, a comunidade e a pátria"". Uniformizar (primeiramente as ações), responsabilizar os jovens para cumprir seus "deveres" eram apenas duas das características iniciais desse tipo de trabalho. Como "Filosofia" dos Clubes 4-S, este define:

Fundamenta-se no princípio de ajudar o homem a ajudar-se a si mesmo, a desenvolver-se integralmente, capacitando-o a arcar com a parcela de responsabilidade que lhe caberá no futuro, como membro de uma comunidade democrática14.

Jovem, autônomo, democrático, capacitado... Essas eram outras características do discurso quatroessista, que num processo de formação de novos sujeitos primeiramente procurou fixá-los ao campo, dar-lhes autonomia em relação a seu próprio conhecimento (questionar os saberes costumeiros), fazê-los responsáveis para produzir o suficiente para que a agricultura deslanchasse frente ao processo de industrialização. Mas também era necessário tornar-se legítimo, afinal, a democracia (conforme a concepção da Extensão Rural) podia servir como uma estratégia para legitimar um trabalho, sem a obrigatoriedade, por exemplo, do exército e da escola.
Esse instrumento da Extensão Rural não esteve vinculado à escola, e não se constituiu como prática curricular, mas sim numa atividade extra-classe. O trabalho em Clubes 4-S proporcionava, segundo o manual, "uma modalidade prática e objetiva de educação, que vem complementar a instrução recebida na escola e a educação tradicional da família”15. Mas esse tipo de saber tratado pela Extensão Rural tentou, através de seu discurso, deslegitimar a escola (e o professor) e a família como instituições responsáveis pelo ensino do jovem do campo, e procurou colocar-se como responsável pelo desenvolvimento de outras noções de saber:

A efetividade do extensionista como agente de mudanças na agricultura é considerada como um fato comprovado. A do professor rural é posta em dúvida por alguns investigadores. Alers Montalvo, em investigação que realizou em Turrialba, Costa Rica, concluiu que a comunidade formava uma imagem negativa do professor como pessoa quelhe pudesse ensinar agricultura16.

Já no início da década de 70 esta idéia pôde ser percebidanum plano que norteava os trabalhos de Extensão Rural no Estadode Santa Catarina:

No Estado, a função educativa da juventude não atingiu índices desejados. No meio rural, especialmente, os pais são os instrutores naprimeira fase da vida do jovem. Transmitem as experiências adquiridas e seus próprios padrões culturais, muitas vezes conflitantes com os valores que se pretende introduzir. Na agropecuária e nas tarefas domésticas os conhecimentos transmitidos pelos pais conservam sua importância constituindo barreiras à introdução de uma nova tecnologia. Todavia, à medida que evolui o meio, há mudanças desta situação e os pais se apercebem da necessidade de confiar seus filhos a orientadores mais competentes, como forma de complementação indispensável à educação do lati17.


Para a Extensão Rural, a educação do jovem pelos pais não vinha ao encontro do estágio em que a agricultura adentrou. O choque cultural entre aquilo que o saber costumeiro contém os valores que se pretendeu introduzir precisou ser amenizado. Primeiramente na estratégia da ACARESC, tornou-se necessário desqualificar tal saber costumeiro, para em seguida, legitimar-se como responsável pelo ensino dos jovens rurais. Aqui poderíamos discutir sobre a idéia de "des-envolvimento”18. Desenvolver significa tirar do invólucro, desligar-se, ultrapassar os limites impostos pela natureza. O conhecimento tradicional é marcado por um grande respeito a esses limites, que, com a ajuda dos agrotóxicos, adubos químicos e maquinado, acreditavam os arautos da Revolução Verde que esses limites poderiam ser ultrapassados. Assim, também se tornou preciso "dês-envolver" o jovem de sua cultura tradicional.

"Novos Preparados Químicos Aumentam a Produção"
Os Clubes 4-S constituíram-se, enfim, como "trabalho educativo, realizado em grupos mistos, que dá aos jovens a oportunidade de aprender fazendo, através dos projetos individuais e de atividades em Conjunto”19. Dentro das atividades desenvolvidas pela Extensão Rural, o grupo misto, que reunia meninos e meninas, também compartimentava os saberes. Afinal, os meninos têm noções sobre o trabalho na lavoura, aprendem a lidar com os fertilizantes, entre outras atividades "masculinas", tal como o trabalho "pesado" na roça. Já com as meninas, além da lida com a roça, as hortas, também recebem uma educação voltada ao lar, de como, por exemplo, preparar tortas, doces, compotas, além de cuidar de ferimentos.
Faz-se necessário informar que, apesar de meninos e meninas participarem das reuniões, as atividades práticas dos meninos eram orientadas pelo extensionirta rural, e com as meninas, a orientação dava-se por parte da extensionista social. A equipe de trabalho da Extensão Rural era constituída por um técnico de nível superior oumédio (veterinário, técnico agrícola, etc.) como extensionista rural; uma economista doméstica de nível médio (magistério) para o cargo de extensionista social; uma secretária e um jipe (automóvel que facilitava o acesso às comunidades rurais). O técnico realizava atividades com agricultores e filhos de agricultores enquanto a economista doméstica trabalhava com senhoras e moças. Enquanto os homens recebiam orientação em relação ao trabalho com sementese adubos, por exemplo, a economista doméstica realizava os seguintes trabalhos: Educação Sanitária (para o lar, propriedade epessoas), proteção de nascentes e poços (para obter água potável), uso do filtro e água fervida, construção de privadas, buraco para olixo. Observa-se abaixo a divisão entre lavoura (atividade masculina) e horta (atividade feminina):

O sócio Normelio Bonadiman, contou como iniciou, fez e está a sualavoura demonstrando estar satisfeitíssimo. Mais (sic) a sócia Inês Gasparetto contou como está a sua horta. Diz estar dando resultadospositivos. E também está contente com o seu trabalho20.

Nesse sentido, a lavoura significa o mesmo que "atividades masculinas", sendo que a horta, a higiene e outras atividades relacionadas ao lar estão ligadas à idéia de "atividades femininas". Enfim, o discurso extensionista se coloca como um espaço de educação, que pretende estabelecer uma noção de conhecimento diferente de seus pais e dos jovens "não-quatroessistas"; conhecimento este demonstrado pelos resultados atingidos (através dos concursos de produtividade, das lavouras coletivas de demonstração). Entretanto, apesar de "inovador", esse discurso mantém as tradicionais diferenciações de gênero, presentes na agricultura familiar, segundo as quais a lavoura é o espaço masculino, e a horta é o espaços feminino. Também se baseia no "praticar a agricultura", pois a realização de uma lavoura individual e outra coletiva é o espaço que ojovem tem para colocar em ação seus conhecimentos. A próprialavoura individual pode constituir-se numa forma de incentivar a responsabilidade do jovem sobre a produção, controlar não somente sobre o que este cultiva ou deixa de cultivar, mas também controlar sua ociosidade.

O Manual dos Clubes 4-S foi reeditado várias vezes, sofrendo algumas alterações, mas o seu conteúdo, sua "filosofia" e seusobjetivos permaneceram fiéis ao manual original, da década de 50. Como aspectos vantajosos do trabalho com a juventude, o manualdestaca alguns pontos:
1) É mais fácil moldar a mentalidade ainda em formação dos jovens, do que mudar as idéias já sedimentadas dos adultos. 2) Podemos conseguir mudanças de atitudes de adultos através do trabalho comjovens. 3) Quando se trabalha com um jovem, prepara-se um elemento que tem, praticamente, toda uma vida produtiva a serviço de umanova idéia. Com adultos, o tempo é mais limitado. 4) 0 trabalho bemorientado, a partir da juventude, no sentido de tornar a vida do campomais aprazível, gera o amor às lides agrícolas, fixando as populações rurais e reduzindo o êxodo21.
A meu ver, a principal finalidade de trabalhar a juventude rural não se constituiu em simplesmente controlar ou manter o jovem nocampo (mantê-lo "alienado" politicamente ou evitar o êxodo), maso discurso estava fundamentado de forma muito clara na constituição de um novo sujeito. É esse novo sujeito que deveria ser responsável para com sua família, pátria, comunidade, clube, etc. É umsujeito que "é mais fácil moldar sua mentalidade". Nessa constituição de um novo sujeito pode-se pensar em fixá-lo no campo, utilizando-se de estratégias para atingir outros objetivos. Mas, primeiramente, é necessário constituir um sujeito apto para lidar com a modernização que adentra pelo campo. É necessário, conforme o discurso da Extensão Rural, "moldar" um novo jovem, para que seuconhecimento chegue até sua propriedade e seja expandido para acomunidade, e assim por diante. Conforme visto anteriormente, este jovem deve combater o conhecimento tradicional herdado dospais, e mudá-lo ao longo de sua vida produtiva.
O trabalho com a juventude rural não escapou das práticas disciplinares. Tendo em vista que a disciplina é a técnica de controle do indivíduo, bastou à Extensão Rural empreender uma organização (os Clubes 4-S) que pudesse controlar os detalhes, ou seja, controlar desde o corpo do agricultor até suas maneiras de lidar com aagricultura. Assim, a articulação de um discurso procurou gerar práticas de controle desses indivíduos, o que auxiliou na constituição do novo jovem. O discurso procurou formar um jovem "autônomo" em relação à sua produtividade, mas que era acompanhado, vigiado, que tem controlado suas atividades, sua ociosidade, seu lazer e seu relacionamento com os outros jovens.
A ACARESC, no caso catarinense, constitui-se como o sujeito do discurso, como agente capaz de levar o desenvolvimento ao campo, de ensinar aos jovens, etc. Era a voz da verdade frente ao contexto desenvolvimentista que procurava romper com o "atraso". Constituiu-se como legítimo, como autoridade neste assunto.
É necessário, também, garantir a legitimidade do discurso pela autoridade ausente, ou seja, aquilo que se fala não é conhecimento apenas do sujeito falante (conhecimento do extensionista, por exemplo), mas da instituição que ele representa (a ACARESC). O extensionista falava em nome da ACARESC, e não por si próprio.
Uma outra questão é que as concepções que constituíram os Clubes de Trabalho 4-S são colocadas como pedagógicas:

A juventude rural geralmente não conta com as vantagens que gozamseus irmãos da cidade. Dispõe de menos lugares de reunião, possuemmenos atividades sociais. Portanto, qualquer programa que os reúnacom a finalidade de ensinar-lhes coisas úteis, para fazerem amizades oupara que divirtam-se de forma sadia, cumpre uma necessidade vital emnossas vidas. Os especialistas da Extensão, asseguram que a juventuderural corresponde aos ensinamentos. Aprecia a atenção que se lhedispende. Não quer conformar-se com o medíocre, como geralmente sucedia comseus antecessores (grifo meu). Quando se lhe oferece esperança, aceita a oferta com entusiasmo e com fé21.


O programa 4-S ensina, pratica, demonstra, instrui os jovens.

Assim, o discurso recebeu o atributo de inquestionabilidade, garantida por sua função pedagógica". Mas esta pedagogia pretendeu romper com os saberes costumeiros, "medíocres", conforme a citação, e que não interessam mais nesse processo de modernização.
O discurso extensionista pretendeu impor responsabilidades aos agricultores quanto ao seu trabalho; pretendeu regular a vida coletiva desses, definindo os espaços e os deveres. E para estabelecerformas de controle dessa mesma vida coletiva, procurou, enfim, formar urna nova "mentalidade", e para isso, o jovem rural foi umdos objetos desta investida.

Considerações finais

A Extensão Rural trouxe consigo a idéia de mudança, seja elade hábito, comportamento, tecnologia, etc. A principal finalidade em direcionar ações extensionistas para a juventude rural, atravésdos Clubes 4-S, não se constituiu simplesmente em evitar o êxodo: discurso da Extensão Rural fundamentou-se de forma muito clara na constituição de um novo sujeito. Um sujeito que deveria estar atento para as novas técnicas e tecnologias de produção destinadas ao campo.
O Estado, através de seus colaboradores (aqui coloco a ACARESC), procurou incentivar a formação de novos sujeitos para campo brasileiro. Se no final da década de 60 foi visto que o jovem (o teenager norte-americano) constituiu-se num "problema", em uma categoria diferenciada que fugiu do controle de pais, educadores e autoridades, é importante ser pensado que foi no inicioda década de 70 que surgiram práticas efetivas para a formação deClubes 4-S no Estado de Santa Catarina. Esse jovem precisou ser controlado para garantir o sucesso das ações extensionistas.
A Extensão Rural, ao investir seu olhar nesse projeto de Clubes 4-S, transformou o jovem rural em objeto a ser estudado: (1) precisou-se saber sobre ele, e (2) para que ele soubesse. Tornou-se necessário investigar sobre seus hábitos, seu comportamento, e assim investir em ações para "conquistá-lo" (legitimar o trabalho da Extensão Rural com juventude). Num outro momento, procurou-se introduzir conhecimentos "modernos" para os jovens. Pretendeu-se fixá-lo ao campo, torná-lo responsável pelo sucesso (ou fracasso) da agricultura brasileira. Bastaria plantar, segundo o discurso oficial, que o governo garantiria o que mais fosse necessário. Porém, plantar naquele momento significou utilizar-se de sementes selecionadas, adubação química, tratores, colheitadeiras, enfim, "novidades" que o jovem precisou de técnica para lidar com essas tecnologias que adentraram no campo.
Ainda existem Clubes 4-S no Estado de Santa Catarina, porém, oficialmente não fazem parte da EPAGRI, embora recebam assistência técnica dessa instituição. A força que essa forma de organização teve em alguns municípios mostra que os jovens e outrasentidades procuraram se organizar para levar adiante seus projetos.
Hoje, a EPAGRI desenvolve o projeto Pró-Jovem (rural e pesqueiro), como disse anteriormente, com caráter motivador.
Assim, a ideia de que a juventude rural é a semente que planta, sob o céu anil, o progresso da nação23 transforma-se, mas resiste ao tempo.

Notas

1. Versão modificada da dissertação de mestrado intitulada Saber, Sentir, Servir eSaúde: a construção do novo jovem rural nos Clubes 4-S, SC (1970-1985).
2. GONÇALVES NETO, Wenceslau. Estado e agricultura no Brasil. Política agrícolae modernização econômica brasileira (1960-1980). São Paulo: HUCITEC, 1997. Considero este um dos caminhos para melhor visualizar os debates académicos em relaçãoà agricultura nos anos 60, 70 e 80 e suas formas de aplicação através dos planejamentosgovernamentais.
3. ACARESC. Juramento dos jovens quatroessistas. In: Relatório da II convençãointer-regional de Clubes 4-S. Palmitos: ACARESC, 1977.
4. A Extensão Rural objetivou, ao longo de sua existência, difundir tecnologias econhecimentos técnicos aos agricultores. A agricultura brasileira foi considerada "atrasada" e por isso vários investimentos foram feitos para levar a "modernidade" até ocampo.
5. JONES, Earl. Princípios em que se baseia o trabalho de clubes de jovens. In: Workshop: seleção, uso e treinamento de lideres voluntários locais. Domingos Martins (ES): 23 a 30de setembro de 1962, p. 52.
6. ACARESC. Relatório da II convenção inter-regional de Clubes 4-S. Palmitos (IlhaRedonda), 15 de nov. de 1977.
7. COSTA, Eleonora apud ORLANDI, Eni. Sobre o acontecimento discursivo. In: SWAIN, Tânia Navarro (Org.). História no plural. Brasaia: UNB, 1994, p. 192-193.
8. ACARESC. Manual dos clubes de trabalho 4-S. Florianópolis: ACARESC, julho de1973, p. 2. (reimpressão)
9. Ibidem, p. 2.
10. ABCAR. Manual dos Clubes 4-S. Rio de Janeiro: Série E — n 1, p. 5.
11. Ibidem, p. 5.
12. Idem.
13. Idem.
14. Ibidem, p. 09.
15. Ibidem, p. 05.
16. ABCAR. Workshop: seleção, uso e treinamento de líderes voluntários locais. Espírito Santo, 1962, p. 40.
17. ESTADO DE SANTA CATARINA. Plano diretor de extensão rural. 1970, p. 72.
18. Ver SACHS, Ignacy. O desenvolvimento enquanto apropriação dos direitos humanos. Estudos Avançados 12(33) 1998: 149-156, ou SHIVA, Vandana. Abrazar la vida.
19. Mujer, ecologia y supervivencia. Madrid: horas y HORAS, 1995 (1988).
20. ABCAR . Manual dos clubes 4-S. Rio de Janeiro: Série E — n° 1, p. 5.
21. CLUBE 4-S ALIANÇA JUVENIL. Atas 1972-1977. Ata 03 e 02 de dez. 1972.
22. ABCAR. Manual dos clubes 4-S. Rio de Janeiro: Série E — n° 1, p. 08.
23. FUNDAÇÃO FORD. Anuário para a juventude rural das américas. 1960, p. 9. (fotos)
24. COSTA, 1994, p. 197.

25. Hino da Juventude Rural, de Luiz Lacerda e Concessa Lacerda.

Fontes:

- Fotos, FUNDAÇÃO FORD. Anuário para a juventude rural das américas. 1960



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