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'Ofereço-me para cooperar com amor a fim de compartilhar a abundância de meu coração.'
'Comunico-me sem apegos e descubro a harmonia de evoluir na Terra.'

domingo, 30 de outubro de 2011

CONFISSÕES DO LATIFÚNDIO


ô meu Pai!

CONFISSÕES DO LATIFÚNDIO

Pedro Casáldaliga

Por onde passei,
plantei
a cerca farpada,
plantei a queimada.

Por onde passei,
plantei
a morte matada.

Por onde passei,
matei
a tribo calada,
a roça suada,
a terra esperada...

Por onde passei,
tendo tudo em lei,
eu plantei o nada.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Entrevista com Ariovaldo Umbelino

Debate de compra de terras por estrangeiros é para encobrir falta da reforma agrária, aponta professor da USP

A compra de terras por estrangeiros no Brasil é uma questão a ser debatida com prioridade pela Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados. No último mês, uma subcomissão foi criada para analisar e propor medidas específicas a esse respeito.
Dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) – de janeiro deste ano –, apontam que estrangeiros detêm 4,5 milhões de hectares de terras no Brasil – isso equivale ao território do estado do Rio Grande do Norte. No ano de 2010, a área na posse de estrangeiros correspondia a 4,35 milhões de hectares – o que significa um aumento de 3,44%.
Contudo, para o professor de Geografia Agrária da Universidade de São Paulo (USP), Ariovaldo Umbelino, o problema no campo brasileiro não está na posse de terras por pessoas jurídicas ou físicas estrangeiras, mas sim, na ausência da reforma agrária. Em entrevista à Radioagência NP, Umbelino descreve como ocorreu a construção do discurso de problemática em torno das terras brasileiras em mãos de estrangeiros. Ele também critica a postura da esquerda política na abordagem da questão.
Radioagência NP: Como o senhor analisa a questão da compra de terras brasileiras por estrangeiros?
Ariovaldo Umbelino: É uma farsa essa questão de venda de terra para estrangeiro. No meu artigo [Ariovaldo publicará em breve um artigo científico sobre o tema] eu trato como tragédia e farsa. Tragédia porque isso apareceu no Brasil [em 1968] quando se vendeu aos estrangeiros quase 30 milhões de hectares no país. Deu um “forrobodó”, os militares fizeram toda a legislação que está em vigor, que é de 1971, derivada desse verdadeiro escândalo de venda de terra. Sabe quanto de terra a lei de 1971 permite os estrangeiros comprarem do Brasil? 25% do Brasil, mais de 200 milhões de hectares. E eles [os estrangeiros] têm quatro milhões. Quer dizer, onde está o problema? Isso é uma coisa manipulada, construída.
Radioagência NP: O senhor aponta no artigo que a volta da discussão sobre venda de terras a estrangeiros estaria no ano de 2008, tendo a ver com o ex-presidente do Incra, Rolf Hackbart, e o ex-ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel. Como se deu a volta desse debate na atualidade?
AU: Por que o assuntou voltou hoje? Porque o seu Rolf Hackbart queria, junto com o Guilherme Cassel, montar estratégias de não se discutir mais reforma agrária no Brasil. Para o Incra não fazer mais reforma agrária. E aí, em 2008, exatamente no ano em que fazem as duas medidas provisórias de entrega de terras do Incra na Amazônia Legal para os grileiros – as medidas provisórias 422 e 458. Exatamente depois de uma entrevista do João Pedro [Stédile] ao Estadão. E da ocupação das fazendas da [indústria de produção de papel] Stora Enso no Rio Grande do Sul, no Dia da Mulher, em 2008. E a partir daí o Rolf solta essa notícia, põe esse assunto em discussão: venda de terra estrangeira. Então não era um problema, de repente virou um problema.
Radioagência NP: E o que acontece depois disso?
AU: Bem, aí acontece que o Rolf solta essa notícia, divulga os dados de 4 milhões de hectares [pertencentes a estrangeiros no Brasil]. O jornal Estadão faz manchete. A Folha de S. Paulo faz manchete também. Dá aquele alarde como se os estrangeiros fossem donos do Brasil. Só que os grandes proprietários do Brasil, são brasileiros. E ninguém escreve nada sobre isso, ninguém escreve mais nada sobre questão agrária e sobre reforma agrária no Brasil. Parece que está tudo bem, que é bom que não tenha reforma agrária mesmo.
Radioagência NP: Mas não existem empresas estrangeiras adquirindo terras no Brasil?
AU: As empresas internacionais, os grupos internacionais não estão interessados em terras, eles estão interessados no que se produz nas terras do Brasil. Só em dois setores da economia os estrangeiros estão comprando terras juntos, porque compraram as usinas de açúcar. As usinas, em sua grande maioria plantam cana em terra própria. E o outro setor é o setor de celulose.
Radioagência NP: Então, qual é o principal problema do campo brasileiro na visão do senhor?
AU: O problema é não fazer a reforma agrária. O problema é entregar terra grilada [para os grileiros], lá na Amazônia Legal, terra do Incra. E, no entanto, todo mundo fica discutindo essa história da venda de terra estrangeira. Tudo porque se acredita que essas empresas [estrangeiras] são as donas das terras no Brasil. Isso não é verdade. Tem uma aliança de classe [da burguesia estrangeira] com a burguesia brasileira. Elas [as empresas internacionais] compram a produção, elas não produzem. Se você pegar no setor de grãos, elas não produzem direto. E o número de estrangeiros que estão no Brasil produzindo direto é insignificante perto da quantidade dos brasileiros.
Radioagência NP: E a esquerda no Brasil, como se posiciona diante desse quadro?
AU: O grande problema é que se usa uma teoria do imperialismo que já não explica o nosso mundo. Lênin [teórico marxista russo] fez a teoria – no fim do século XIX para o século XX – que é perfeita para entender o mundo. Porque a conquista e a formação dos impérios eram feitas pela ocupação territorial. Hoje não é mais pela ocupação territorial. Essa coisa é que fica na cabeça de uma parte da esquerda, com essa visão. E os jornais brasileiros é uma mídia completamente vendida, sabe que publicando esses artigos [sobre aquisição estrangeira de terras no Brasil], a esquerda fica toda ouriçada. Mas a esquerda não fica mais ouriçada com concentração fundiária, não fica mais ouriçada com a falta de reforma agrária, com o aumento do número de assassinatos no campo. É um falso nacionalismo, porque não está nem aí, a economia brasileira inteira já está internacionalizada, e com isso parece não ter problema.
De São Paulo, da Radioagência NP, Vivian Fernandes.
27/07/11

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