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domingo, 16 de novembro de 2014

O colonialismo interior e o “Dia Mundial pelo não uso de agrotóxicos”



A data a ser comemorada em três de dezembro pode ser mais uma oportunidade de dar-se conta das tramas engendradas pelas grandes corporações para que o governo execute e a sociedade consuma, por exemplo, na matriz da biotecnologia milhares de vezes mais poderosa

por Sebastião Pinheiro

Nesse Dia do Saci, ontem segundo um projeto de lei, não encontrei um sequer nas lojas em Porto Alegre, somente Halloween e coisas do seu gênero. A dignidade permite que não se agrade a todos e há situações, que a autenticidade exige que não se agrade a ninguém ou nem a muitos para sempre. Situação saudável, pois não abre espaço a decepções. Contudo, há fatos que entristecem profundamente e por muito tempo. Por exemplo, quando descobres algo que deveria ser de amplo conhecimento e divulgação e ficou escondido durante meio século. É ou não é traição?

Calejado participei no resgate de “Pães de Pedras” de Julius Hensel, proscrito durante 115 anos; “O Húmus” de Selman Waksmann idem por mais de 70 anos, mas agora fiquei chocado ao ler por primeira vez sobre o cientista estadunidense Morton Biskindi.

Não exagero. Ele, em 1947, há 67 anos portanto, fez uma correlação entre o crescimento epidêmico do número de crianças atingidas por pólio (paralisia infantil) nos EUA e o crescimento do uso de DDT. Recordo que naquela época não existia ainda a vacina Salk e muito menos a Sabin. O gráfico divulgado à epoca deveria deixar de cabelo em pé qualquer burocrata ou político naquele país. Muito estranho, mas não houve nenhuma medida ou repercussão. Por quê?

Na escola foi-me ensinado e imposto pelos meios de comunicação que aquela era a maior democracia do mundo, embora a 13ª Emenda Constitucional tenha determinado um prazo de 30 anos aos estados para iniciar aplicá-la em seu território. Acompanhei as manifestações em 1966-68 pelos direitos raciais divulgados como “Igualdade de Direitos Civis”. Sou obrigado a recordar a habilidade de Malcolm X ao recorrer à Conferência de Bandung (1955) quando africanos e asiáticos acusaram os europeus, o que o fez preterir de encaminhar reivindicações ao Congresso em Washington sobre os direitos civis, mas recorrer às Nações Unidas pleiteando o respeito aos Direitos Humanos... Foi assassinado, da mesma forma que Martin Luther King e uma dezena de outros. Democracia é outra coisa.

Frequentei boas bibliotecas e pretendo possuir os mais importantes livros sobre Agrotóxicos em pelo menos seis idiomas, mas jamais vi uma referência ao Professor Morton Biskind. Então, as únicas referências sobre os efeitos colaterais do DDT eram dos soviéticos do Instituto de Higiene Rural de Saratov. Eles afirmavam já em 1949 que a molécula e seus metabólitos (degradabólitos) tinham efeitos colaterais sobre os hormônios, o que posteriormente na década de 80 encontrei, an passant nas referências bibliográficas de Francis Chaboussou em “As plantas doentes pelo uso de Agrotóxicos”, da L&PM.

Para a totalidade dos agrônomos e biólogos as referências aos riscos dos venenos tinha gênesis na leitura subversiva de “Primavera Silenciosa” da cientista Rachel Carson, em 1961, traduzida para o vernáculo pela Editora Melhoramentos em 1963, mas rapidamente desaparecido das livrarias pela vontade militar das empresas de agrotóxicos no ano seguinte, e multiplicada febrilmente após o surgimento das fotocopiadoras de forma clandestina...

Pela vontade militar das empresas de agrotóxicos conheço muitas faculdades de agronomia onde os estudantes que perguntavam sobre, ou nominavam o livro, tinham sérios problemas com os professores, óbvio que essa era também uma das razões das ditaduras (Espanha, Portugal, Grécia e Turquia) na culta Europa, onde também morreu suicidada Petra Kelly.

O DDT foi banido dos EUA em 1969. Neste ano teve seu uso proibido na cultura do Fumo aqui no Brasil por razões evidentes e continuou sendo utilizado duas décadas depois nas Campanhas de Saúde Pública. Agora lembro do causídico Sobral Pinto esgrimindo o artigo 14º da Lei de Proteção aos animais para defender seu compatriota um preso político. Depois ele desafiou o imperialismo defendendo os membros da missão chinesa, presos e acusados de espiões. Hoje este tipo de paladino está extinto. É mais fácil, pois todos justificam erros e incompetências, porque os outros também erram e são incompetentes. O “Ut Caesaris coniugium non esse honestum, honestum habes videre" (A mulher de César não basta ser honesta, precisa parecer honesta) com a democracia das grandes corporações foi pras cucuias.

Desde 1996, após a Conferência de Weybridge, o DDT está entre os “disruptores endócrinos”. Uma década depois passou a ser, também “obsógeno” com as descobertas Felix Grün & Bruce Blumberg, em UC Irvine, dispara os genes da obesidade, da mesma forma que o açúcar enzimático de milho HFCS usado nas colas, balas e refrigerantes. Tudo isto pode ser constatado nos livros: “The Autoimmune Epidemic”, de Donna Jackson Nazakawa e “The Epidemy of Absence”, de Moises Velásquez-Mannoff. Se achares que sou radical, te ofereço copiar “Salt, Sugar, Fat”, de Michael Moss. O problema é mais complexo, não adianta consumir livros...

Detesto ficar remoendo o passado, mas as desconstruções na memória cívica obrigam a lembrar outro cientista Don Huber, agrônomo, coronel especialista em armas químicas e biológicas do exército norte-americano, que vem denunciando os riscos do herbicida Roundup à base de Glyphosate (Glifosate) causando Mal de Alzheimer, Parkinson, CWD, Doença Jakob-Krefeld pela quelação de microelementos e traças. Isto consta no livro “Poison Spring” de E. G. Vallianatos e precisa ser lido, não consumido, por todos os cidadãos, para termos outra democracia, diferente da imperial-corporativa-eugenista-mercantil, “em que tudo é permitido, mas nada possível”, exceto através do dinheiro ou seu sucedâneo.

Mas, não sejam ingênuos, as leituras referidas exigem estudo, reflexão e alteridade. Principalmente a última e precisam ser contextualizadas para evitar fascínio e deslumbre com a liberdade obtida, pois para o império tecnologia é combustível para o poder corporativo. Poder que age com inteligência e faz ressurgir seu passado, para que não se perceba onde e o que ele pretende alcançar. Quando apresentam sua “mea culpa” na matriz da química no Agronegócios, aqui em auge e inquestionável, patinamos polarizando a favor (governo) ou contra (cidadania) e não nos damos conta do que as grandes corporações estão tramando para que o governo execute e a sociedade consuma, por exemplo na matriz da biotecnologia milhares de vezes mais poderosa.

No dia seguinte às comemorações do “Dia Internacional do Saci”, coloco uma de suas estripulias que encontrei depois de uma ventania e redemoinho.

- No aspecto interno, o governo nos últimos 20 anos foi incapaz de controlar a venda de agrotóxicos, sequer aplicou a lei, não fez fiscalizações, nem educou ou capacitou os trabalhadores e agricultores para o “uso adequado” da propaganda, diminuindo ou eliminando as intoxicações, preservando o meio ambiente e natureza. Assim chegamos em 2004 ao topo dos primeiros consumidores mundiais, embora nossa agricultura seja inferior à da Índia e muito menor que à norte-americana.

Algum incauto poderia alegar uma “herança maldita” do governo anterior de FHC, mas um estudo das estatísticas denuncia o contrário. O ministro da agricultura de Lula, eng. agr. Roberto Rodrigues criou a Câmara Temática de Agrotóxicos e nomeou Cristiano Walter Simon da ANDEF/GIFAP (Lobby das Corporações de Agrotóxicos em 27/07/04) seu presidente para a “façanha”. Recentemente o BNDES afirmou que o setor ainda pode crescer 25 bilhões de dólares...

O DDT continua presente nos campos e à mesa do brasileiro através do conhecido acaricida Dicofol, muito utilizado na Fruticultura, em especial na Citricultura, além de amplamente usado nos Hortifrutigranjeiros em especial em morangos. Há muito se sabe que ele tem em sua formulação 11% de DDT gerado durante a síntese, pois sua única diferença com o DDT é uma molécula de oxidrila.

O pior é que o Dicofol degrada-se nos mesmos resíduos carcinogênicos do DDT (DDE e DDD) que permanece nos alimentos, ou seja, são os mesmos do DDT, o que aumenta o problema. Se a saúde e meio ambiente não importam, deveria se evitar o nível de ridículo, pois há a espada de Dâmocles sobre a Economia pelo uso de Dicofol em citros.

Aliás, a “caipirinha” é o drinque nacional e o limão é usado com casca... Não é possível enfrentar o Império sem destruir o colonialismo interior, então para quê comemorar em 03 de Dezembro o “Dia Mundial pelo não uso de agrotóxicos” ou fazer passeatas reivindicatórias como se não houvesse responsabilidade ou governo?
Fazê-lo só nos leva à “Democracia Corporativa Imperial”, embora induzidos & manipulados pensemos estar construindo o nosso próprio projeto de poder.

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