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'Ofereço-me para cooperar com amor a fim de compartilhar a abundância de meu coração.'
'Comunico-me sem apegos e descubro a harmonia de evoluir na Terra.'

segunda-feira, 29 de junho de 2015

"Bendito és tu"


Sebastião Pinheiro*

"...em nome de nossa cidadania, devemos ensinar tudo a todos..."

Quando deixei de engatinhar nos caminhos da universidade e identificar as diferenças entre professores além da ideologia e comportamento social percebi o porquê do título de “PhD (Doutor em Filosofia” das universidades norte-americanas e suas diferenças dos similares da Grã Bretanha e União Européia de tradição mais antiga onde o saber segundo a Deutsche Wikipédia designa o Doctor Rerum Naturalium (Dr. rer. nat.) mostra que somente em três ramos: Teologia, Direito (canônico ou civil) e Medicina era possível essa graduação. O que foi pioneiramente modificado na Prússia pelas necessidades da Sociedade Industrial para a fase de Sociedade Moderna onde foram incluídas também as “Artes” a partir de 1810 durante as guerras napoleônicas. Pelo que muitas definições alemãs passaram a usar a expressão: ... é a “ciência e a arte” sobre... logo traduzidas e disseminadas por diversos países periféricos.
Filosofia vem do grego e significa “amor ao saber”, sentimento óbvio acima do poder. Obviamente que no momento em que o poder religioso determina que somente Teologia, Direito e Medicina podem levar ao grau máximo de estudo deixando de fora ou submetendo a hierarquia da Filosofia à Teologia decana no triunvirato anterior, fica tácita a hierarquia inferior da Filosofia e sua submissão ao “poder” (há quem goste do termo sistematização), neste então sob a égide a Igreja Católica. A Reforma de Lutero principalmente na Educação abriu uma cisão bem mais poderosa que a centralização teológica e sua influência fez que somente trezentos anos depois a Prússia englobasse a graduação artística (civil e militar) no âmbito universitário, embora fora dos “cânones” da Universidade pela estrutura milenar provinda daquela sabedoria grega anterior à Alexandre, e depois Roma.
Aprendi a ler encíclicas por continuar engatinhando nos meandros do saber e me obrigo a conhecê-las ex – officio laico. Por exemplo, somente após ler Rerum Novarum de Leão XIII é que entendi o Manifesto de Marx; Depois Mater et Magistra de João XXIII entendi a profundidade da Guerra Fria, principalmente as transformações dos direitos sociais de ambos lados; Populorum progressio de Paulo VI sobre o desequilíbrio entre os países e sociedades me fez posicionar sobre os danos da “Revolução Verde”; Humanae vitae (bula Humanae salutae – C. Vaticano II e Conferência de Bispos em Medellín) fez entender o significado do neo-maltusianismo da Revolução Verde e a preocupação do Império Anglo-Americano com a proliferação da pobreza ideologizada, consubstanciado pelo livro “La Bomba Poblacional” do casal P. R. Ehrlich “produzido” 7 anos depois e as manipulações do Clube de Roma e reações da “Teologia da Libertação” em ação na América Latina.
Da prolífica produção do longevo mandato de João Paulo II escolhemos apenas a Centesimus Annus, que aborda o centenário da Rerum Novarum e permite atualizar e corrigir o que havíamos então aprendido.
Desde o internamento no Colégio Agrícola em 1965 estou sob a influência ambiental, pois a agricultura antes de ser o conhecimento escolar, tecnológico ou profissional (de interesse de governo e mercado) é herança atávica, memória e sabedoria de antepassados, e é assim que recebo “Laudato sii” do Papa Francisco.
O exigente maestro Gumercindo León, do Instituto Tierra Prieta, de Tepetlixpla, E. do México perguntou: “Já leu”, embora ela tivesse saído apenas à 24 horas... Fui ler. É leitura para repetir três vezes.., mas a ansiedade me obriga responder após a primeira.
Para quem não sabe o jesuíta Francisco é Doutor na “arte” da Bioquímica pela Universidade de Buenos Aires e contemporâneo e aluno da equipe de B. Houssay, F. Leloir e outros com o mesmo nível, mas que não foram laureados com o Prêmio Nobel de Medicina e Bioquímica respectivamente.
Então estudante lembro que junto a três colegas em 1970 estávamos esperando uma audiência com o Bispo de Neuquén Jaime de Nevares (irmão de um general do exército argentino) e severo opositor à ditadura militar, sobre o nosso estágio naquela Província pela cátedra de Sociologia Rural para trabalhar com indígenas da etnia Pehuenches e cruzou um jovem, talvez seminarista excitado com a Teologia da Libertação ou agente com outras intensões e nos perguntou: “Ustedes son seminaristas”. Ao que eu na maneira carioca de ser respondi sorrindo: “Gracias al Buen Dios, No”. Fui reprimido, posteriormente, pelos dois colegas e xavecado durante toda a viagem de retorno à La Plata e passei por herege e estúpido entre os colegas de classe.
Há muito Pehuén (Araucária araucana) semeado por mim na Comunidade de Santa Terezita contrariando os colegas que somente queriam semear tomates, lentejas, fava e alface. Todos os pinhões receberam a benção e a batida do Kultrun antes de ir par a terra. Ainda lembro as crianças, que ficavam muito contentes quando caçava em uma noite de dez até trinta lebres patagônicas no começo recusado, mas depois degustadas por todos.
“Laudato sii” permitiu rejuvenescer e voltar no tempo. Para mim está no mesmo nível de Rerum Novarum e Humanae vitae, que infelizmente as forças políticas sufocadas não puderam aplicar.
Para quem continua investigando a agricultura além da produção em quantidade (Revolução Verde I) ou qualidade (Revolução Verde II e III) o texto é um linimento filosófico extraído de todas as reuniões episcopais sobre o tema, que desde 1972 é prioridade diplomática multilateral das Nações Unidas com Conferencias em Estocolmo (1972), Rio (1992) e que nos últimos 20 anos enfoca a Mudança Climática e já foi premiada com o Prêmio Nobel da Paz. O alerta para o risco do umbral irreversível, que alguns banqueiros europeus, chineses e outros teimam ignorar soa intermitentemente.
O convívio com camponeses mexicanos de diferentes etnias permitiu-me um grau de discernimento intelectual aguçado e ver o âmago das encíclicas: “O que se deve “saber” com antecedência para “fazer” o predicado com êxito elidindo todas as armadilhas do poder, único gerador da turbulência e perdedor quando for o momento...
O Chefe do Setor de Fertilidade do Solo da União Européia fez uma apresentação para banqueiros na Alemanha, onde demonstrou que aumentando o Carbono, Nitrogênio, Enxofre no Solo os riscos são amenizados, pois o solo agrícola da Alemanha tem capacidade de absorver & amp; armazenar toda a poluição industrial de 27 anos. Contudo vem perdendo sua capacidade de armazenamento embora a reversão seja fácil e barata, mas não gera os negócios e interesses em serviços, tecnologia e relações estrangeiras dos CEO das empresas alemãs como, por exemplo, investir em eucalipto que destrói o Carbono, Nitrogênio, Enxofre e Água no Solo. A ação das entidades ambientalistas está em todas as entrelinhas traçada por sua Santidade.
Vou ruminar a releitura da Laudato Sii para alcançar além da filosofia nela contida, também a atmosfera e espiritualidade da batida do tambor (kultrun) para uma semente que vai ser lançada ao húmus e transforma-se e entender a “vida na nossa casa” e a necessidade estar consciente de nossa dependência ultrassocial da saúde do solo, saúde da água e saúde do ar.

Agradecendo muitos aqueles pioneiros desde a antiguidade aos irreverentes ao poder (no meu olhar): Obispo de Chiapas Samuel Ruiz Garcia; Pintor Francisco Toledo de Oaxaca; Obispo Oscár Romero de El Salvador; Bispo Adriano Hipólito de Nova Iguaçu; Arcebispo Hélder Câmara, Dom Tomás Balduíno e Bispo Luís Cappio e seus pares laicos como Augusto Carneiro, José Lutzenberger, Francisco Ancelmo Gomes de Barros, que se imolou deixando sua indignação: “Esta vai ser a única forma de acordar este povo”.

O ato de Francelmo poderia ser evitado com a leitura e estudo pelos poderosos de “Laudato sii”, pois as alternativas precisam ir muito além dos títulos universitários e mandatos carregados de prepotência e arrogância pela liturgia do poder, mas vazios de espiritualidade ao não harmonizar os ritmos da energia do conhecimento, sabedoria e natureza.

A tradução do poema de Neruda ao guarani (foto acima) ensina como a Pelota asteca/maia está próxima do Palín e Kultrun mapuche uma forma de compreender a energia contida na vibração “Laudato sii domini” – Dominum vobiscum ditas por mais de mil formas e línguas diferentes cotidianamente.

*Engenheiro Agrônomo e Florestal, ambientalista e escritor. (publicação original em sua página do facebook)

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