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terça-feira, 9 de agosto de 2016

Cursos superiores em Agroecologia



Sobre a complexidade que envolve a existência (recente) dos cursos superiores em Agroecologia - uma conquista ou um tiro no pé?:
 por Marcelo Gomes Barroca Xavier
UFSCar - Araras . SP
 
Quando se fala em Agroecologia no Brasil há de se ter clara a história do país. Somos filhos de uma colonização escravagista e latifundiária, que até hoje deixa muitas sequelas. Porém, desde sempre, muitas vozes se levantaram contra as atrocidades deste processo desenvolvimentista e são essas vozes que constroem hoje a Agroecologia. Portanto, devemos ser muito cuidadosos, pois há muitos interesses políticos e econômicos que tentam se apropriar da Agroecologia, distorcendo e desconstruindo este movimento – que é muito mais que um curso, uma profissão ou uma propaganda sustentável do agronegócio.
No Brasil, assim como nos outros países da América Latina, a Agroecologia tem um laço estreito com os movimentos sociais campesinos na busca por uma sociedade mais justa e solidária, onde os direitos humanos e ambientais - frente à perversidade da globalização capitalista - sejam mais importantes do que o lucro de poucos e a geração ilusória de ‘divisas’.
Não há espaco para ingenuidade pois, assim como a ciência, a educação não é neutra. Com isso, sabemos que as universidades e demais instituições de ensino são palco de disputa política, seja declaradamente, sutilmente ou até inconscientemente nas relações que se constroem no dia-a-dia de uma universidade.
Ou seja, do que adianta ter um Projeto Político Pedagógico (documento que embasa e direciona qualquer curso de educação superior) super bem feito e coerente com a Agroecologia, se ainda somos reféns do conservadorismo institucional e da fragilidade dos concursos públicos na contratação de professores - priorizando número de publicações em detrimento de experiências práticas em Agroecologia?
É claro que os professores contratados também são, em parte, vítimas deste processo pois, para além dos rótulos sociais, são seres humanos e merecem o devido respeito. Por isso, não se trata de apontar dedos e tampouco tentar personalizar a complexidade dos fatos. Destes, espera-se que assumam a responsabilidade profissional de ir atrás do conteúdo, transcendendo os muros da universidade e ousando quebrar os paradigmas que lhe são impostos - dentro e fora das salas de aula.
É ilusório pensar que em salas de aula ou em laboratórios, cercados pelos muros arrogantes da academia, estaremos formando ''Agroecólogos''. Enquanto estivermos alienados da realidade, da principal fonte de conhecimento desta ciência - que é o saber popular -, estaremos fadados à contradição.
Quanto ao caminho profissional dos que se formam nestes cursos, eis mais um imbróglio, já que quem sempre construiu a Agroecologia foram @s indígenas, @s agricultor@s, agrônom@s, biólog@s, sociólog@s, pedagog@s, artistas e enfim, para além dos rótulos, os seres humanos que se identificam com a ''causa''. Talvez a Agroecologia não precise de um profissional ''Agroecólogo''.
Nesta complexidade os cursos de Agroecologia já são uma realidade e sem dúvida seus estudantes merecem espaço no tão almejado 'mercado de trabalho'. Muitas questões ainda precisam ser amplamente refletidas para que esta ''conquista'' realmente contribua para a construção de uma sociedade baseada na agroecologia e não seja um revés para o movimento agroecológico como um todo.
Pragmaticamente, concordo com a corrente que busca enquadrar os egressos dos cursos de Agroecologia enquanto engenheir@s agrônom@s junto ao CREA - partindo do princípio de que as atribuições técnicas são semelhantes, diferenciando-se no viés que é dado. Este caminho ao menos protegeria a Agroecologia de ser descaracterizada, já que os egressos são livres para atuar inclusive em empresas do agronegócio, mas pelo menos não em nome da Agroecologia.
Enfim, os desafios e potencialidades estão postos e os cursos de Agroecologia pouco a pouco vão se construindo - a contradição propulsionando a vida. Há de se cultivar com muito carinho os solos que acolhem estas sementes.
 
Fonte: facebook (página pessoal)

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