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'Ofereço-me para cooperar com amor a fim de compartilhar a abundância de meu coração.'
'Comunico-me sem apegos e descubro a harmonia de evoluir na Terra.'

domingo, 26 de fevereiro de 2017

A Natureza



A NATUREZA*

Johann Wolfgang von Goethe

Natureza! Estamos cercados e envolvidos por ela – incapazes de sair dela e incapazes de penetrá-las mais profundamente. Sem solicitação e sem aviso, ela nos arrebata para o rodopio de sua dança e continua a arrastar-nos consigo até ficarmos cansados e cairmos inertes em seus braços.
         Ela cria eternamente novas formas; o que vem a existir não existiu jamais, e o que existia não volta a existir -  tudo é novo e, mesmo assim, é sempre antigo.
         Nós vivemos em meio a ela e lhe somos estranhos. Ela fala conosco incessantemente e não nos confidencia seu segredo. Nós atuamos constantemente nela, mas sobre ela não temos poder algum.
         Ela parece ter orientado tudo para a individualidade, e em nada lhe importam os indivíduos. Sempre constrói e sempre destrói, e sua oficina é inacessível.
         Ela vive em tantos filhos – e a mãe, onde está? Ela é a artista única: da mais simples substância produz os maiores contrastes; sem aparentar esforço, alcança a maior perfeição – a mais precisa determinação, sempre imbuída de alguma delicadeza. Cada uma de suas obras tem sua própria essência, cada um de seus fenômenos possui o conceito mais distinto, e ainda assim tudo perfaz uma unidade.
         Ela encena uma peça teatral: se ela mesma a vê, isso nós não sabemos, mas ela a encena para nós, que estamos sentados num canto.
         Nela existe uma vida eterna, um eterno vir a ser e um perpétuo movimento, e no entanto ela não sai do lugar. Ela se transforma eternamente, e nela não há um momento sequer de quietude. Ela desconhece a permanência e amaldiçoa a imobilidade. Ela é firme. Seu passo é medido, suas exceções são raras, suas leis são imutáveis.
         Constantemente ela tem pensado e meditado; mas não como um ser humano, e sim como natureza. Manteve para si um sentido próprio que tudo abrange e ninguém consegue captar.
         Os seres humanos estão todos nela, e ela em todos. Com todos ela pratica um jogo amigável, e, quanto mais é vencida, tanto mais se alegra. Com muitos pratica de maneira tão secreta que chega ao fim do jogo antes de eles o perceberem.
         Até mesmo o inatural é natural, até a mais grosseira vulgaridade tem algo de seu gênio. Quem não a vê em toda parte não a vê corretamente em lugar algum.
         Ela ama a si própria e fixa em si, eternamente, inumeráveis olhos e corações. Diversificou-se para desfrutar de si. Insaciável, faz surgir sempre novos desfrutadores para se comunicar.
         Ela se alegra com a ilusão. Quem destrói essa ilusão em si e nos outros é castigado por ela como pelo mais rigoroso tirano. Quem a segue confiantemente é estreitado por ela como uma criança junto as seu coração.
        Seus filhos são inumeráveis. Em geral ela não é avarenta com nenhum, mas tem seus prediletos, junto aos quais é pródiga e pelos quais muito se sacrifica. Ao grandioso condicionou sua proteção.
         Ela faz brotar suas criaturas do nada e não lhes diz de onde vêm nem para onde vão. Eles só devem caminhar; a trilha é ela quem conhece.
        Ela tem poucos elementos propulsores, porém jamais fora de uso: então sempre operantes, sempre diversificados. Sua encenação é sempre nova, porque ela cria sempre novos espectadores. A vida é sua mais bela invenção, e a morte é sua estratégia para ter mais vida.
         Ela envolve o ser humano em obscuridade e o empurra sempre para a luz. Torna-o dependente da terra, indolente e pesado, e sempre lhe traz nova leveza.
         Ela suscita necessidades porque ama o movimento. É admirável que consiga todos esses movimentos com tão pouco. Toda necessidade é um benefício; tão logo é satisfeita, tão logo reaparece. Uma vez que ela dê mais de si, isso constitui uma nova fonte de prazer; mas logo ela entra em equilíbrio.
         Ela mira cada momento à maior distância possível, e cada momento está em sua meta.
         Ela é a vaidade em pessoa, mas não destinada a nós, para quem a vaidade se tornou de extrema importância.
         Deixa que cada filho se divirta com ela, que cada tolo emita juízos a seu respeito, que milhares de pessoas passem por ela sem nada notar, e mesmo assim se alegra por causa de todos e com cada um faz suas contas.
         Nós obedecemos às suas leis, mesmo lhes opondo resistência; atuamos junto com ela, mesmo querendo atuar contra ela.
         Ela transforma em benefício tudo o que faz, pois de antemão o torna indispensável. Providencia para que a desejamos, e urge para nunca ficarmos saciados.
         Ela não possui linguagem ou discurso, mas cria línguas e corações mediante os quais sente e fala.
         Sua coroa é o amor. Somente por meio deste é que nos aproximamos dela. Ela cria abismos entre todos os seres, e tudo quer congregar-se. Isolou tudo, a fim de levar tudo a se atrair mutuamente. Com alguns goles da taça do amor, torna suportável uma vida penosa.
         Ela é tudo. Recompensa e castiga a si mesma, e a si mesma se alegra e se atormenta. É áspera e branda, amável e assustadora, incapaz e onipotente. Tudo está sempre nela. Ela não conhece passado e futuro. O presente é sua eternidade. Ela é benévola. Eu a louvo com todas as suas obras. Ela é sábia e silenciosa. Não se consegue arrancar-lhe nenhuma explicação, extorquir-lhe nenhuma dádiva sem que ela as conceda voluntariamente. Ela é astuta, mas para boas finalidades – e é melhor que sua astúcia não seja notada.
         Ela é íntegra, e no entanto sempre incompleta. Do mesmo modo como se exercita, pode exercitar-se sempre.
         Para cada qual ela se manifesta numa forma particular. Esconde-se sob milhares de nomes e termos, e é sempre a mesma.
         Assim como me incluiu, ela também me excluíra. Eu confio nela. Ela pode dispor de mim à vontade. Ela não odiará sua obra. Eu não falo dela. Não sobre o que é verdadeiro e o que é falso; tudo já foi dito por ela. Tudo é sua culpa, tudo é seu mérito.

*Ensaio inicialmente atribuído a Goethe, tendo sido publicado pela primeira vez em 1783, anonimamente, no Tierfurter Journal. Mais tarde se revelou a autoria como sendo do jovem teólogo suíço Georg Christoph Tobler, a qual havia sido confirmada por carta pelo próprio Goethe, no mesmo ano de publicação, a seu amigo Karl Ludwing Knebel. Vide, em seguida a este ensaio, o esclarecimento de Goethe a respeito da autoria e do conteúdo.

ESCLARECIMENTO SOBRE O ENSAIO AFORÍSTICO ‘A NATUREZA’

         Esse ensaio me chegou recentemente do espólio epistolar da duquesa Anna Amalia, de respeitável memória; foi escrito por uma mão muito bem conhecida, da qual eu costumava me servir nos anos 1780 em meus assuntos de trabalho.
         Se fui eu o autor dessas considerações, não posso me lembrar realmente, embora estas coincidam bastante com as ideias em cuja direção meu espírito se desenvolvera naquela época. Eu gostaria de denominar aquele estágio de minha cosmovisão como ‘comparativo’, pressionado a expressar sua direção rumo a um superlativo ainda não alcançado. Nota-se a tendência a uma espécie de panteísmo, imaginando-se um inescrutável, incondiocionado, humorístico e autocontraditório ser subjacente aos fenômenos do mundo, e para quem o leva estritamente a sério isso pode parecer um jogo.
         Contudo, a complementação que lhe falta é visão dos dois grandes impulsionadores da natureza: os conceitos de polaridade e intensificação – ambas inerentes à matéria na medida em que a pensamos ora materialmente (caso da primeira), ora, por outro lado, espiritualmente (caso da segunda). A primeira consiste na contínua atração e repulsão, e a segunda numa ascensão sempre almejada. Como, porém, jamais a matéria pode existir e atuar sem espírito e nem o espírito sem matéria, a matéria também pode intensificar-se, bem como o espírito não deixa de atrair e repelir; e isto só é capaz de pensar quem haja separado o bastante para reconectar e haja conectado o bastante para separar de novo.
         Naqueles anos em que o mencionado ensaio foi escrito, eu estava ocupado principalmente com a anatomia comparada, e em 1786 fiz indizíveis esforços para angariar a participação de outras pessoas em minha convicção de que não se poderia excluir do ser humano a hipótese do osso intermaxiliar. A importância desta afirmação não era compreendida nem pelas melhores inteligências, e sua correção era negada pelos melhores observadores, e eu tive, como em tantas outras coisas, de prosseguir meu caminho em silêncio e por minha conta.
         A versatilidade da natureza no reino vegetal foi acompanhada por mim incansavelmente, e em 1788, na Sicília, tive a sorte de obter a metamorfose das plantas tanto por contemplação como em conceito. A metamorfose do reino animal estava bem perto, e em 1790, em Veneza, se me revelou a origem do crânio nas vértebras; eu passei a me empenhar mais na construção do ‘tipo’, ditei o esquema em 1795 a Max Jacobi em Jena e logo tive a alegria de me ver absolvido nessa matéria por naturalistas alemães.
         Tendo em mente a elevada realização pela qual todos os fenômenos naturais foram pouco a pouco concatenados diante do espírito humano, e relendo então com cuidado o artigo do qual partimos, não será sem um sorriso que iremos confrontar aquele ‘comparativo’, como eu o denominei, com o superlativo com o qual aqui terminamos, e nos alegraremos pelos cinquenta anos de progresso.

Fonte: Goethe, Ensaios Científicos - Uma metodologia para o estudo da natureza. Coletânea. Apresentação e introdução: Antônio José Marques. Seleção e tradução dos textos de Goethe: Jacira Cardoso. Ad Verbum Editorial / Barany - ISBN 978-85-61080-15-0  

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