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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A pecuária de corte brasileira e o aquecimento global por Odo Primavesi


A pecuária de corte brasileira e o aquecimento global por Odo Primavesi – Embrapa Pecuária Sudeste.

                O texto a baixo é uma síntese da entrevista de Odo Primavesi cedida a BeefPoint. No texto são frisadas as principais práticas sobre as mudanças que devem ser realizadas no ambiente de produção da pecuária. O Engenheiro Agrônomo Odo, também, visualiza com sabedoria sobre nossas práticas agropecuárias atuais e discursa com uma visão holística a postura que os pecuaristas devem adquirir com as mudanças climáticas e comerciais do Brasil.
Produção de CO2: os valores gerais elevados advém do fato de serem incluídos num mesmo pacote de conclusões os sistemas de produção de todas as espécies animais, não somente dentro da porteira, mas na cadeia produtiva, incluindo o transporte, com os consumos de energia fóssil.
Entendendo que a preocupação é sobre que rumo deve tomar nossa pecuária, especificamente a de corte, e acreditamos que seja interessante localizar o leitor no que realmente está pegando e que poderá ser utilizado para limitar nossas exportações, sabendo-se que na realidade algumas práticas de manejo tradicionais devem ser abandonadas porque prejudicam o ambiente e a produtividade do sistema de produção.
Então vejamos alguns fundamentos para que melhor possam perceber e avaliar a situação, talvez até tendo condições de sugerir soluções criativas:

a) a infra-estrutura natural essencial, o hardware para rodar os sistemas produtivos, como a pecuária de corte, é composta de água residente (recarregada pelas chuvas: lençol freático, serapilheira e vegetação), em solo permeável, protegido e mantido permeável por vegetação permanente e diversificada (em tripla camada protetora: dossel ou copas, restos vegetais ou serapilheira, e trama radicular que mantém solo permeável).
O solo de uma pastagem de capim-braquiária, de baixa fertilidade e compactado, volta a ser permeável com descanso de 18 meses. Quando a pastagem é estimulada com uso de fertilizantes, retorno de material orgânico na superfície do solo e pastejo rotacionado, um descanso de 35 dias é suficiente para manter o mesmo solo permeável.

b) os serviços ambientais essenciais, o sistema operacional, necessário para rodar os sistemas produtivos, são: água das chuvas armazenada no lençol freático (abastece as plantas, as nascentes e os poços), a atenuação e manutenção de uma variação térmica pequena, com proteção do solo contra aquecimento excessivo (com temperaturas acima de 33oC plantas não absorvem água nem nutrientes), e a manutenção da umidade relativa do ar, por meio da cobertura vegetal permanente vaporizadora hidrotermorreguladora (vaporizam de 4 a 10 vezes mais água para umidificar o ar que um corpo de água de mesma superfície; a substituição de uma floresta por uma represa em geral aumenta períodos de baixa umidade relativa do ar), que evita que as plantas de interesse (cultivos e pastagens) sofram de transpiração excessiva, murchem as folhas e parem de fazer fotossíntese, resultando em perdas de produção.
As árvores são estratégicas para permitir o máximo de acúmulo de energia solar por unidade de área (de 120 a 360 t/ha de matéria seca; o que eqüivale a um acúmulo de gás carbônico de 240 a 720 t/ha). Se quisermos considerar também por unidade de tempo, não tem quem possa competir com as gramíneas tropicais, como o capim-elefante e a cana-de-açúcar (em torno de 50 a 70 t/ha/ano de matéria seca; ou 100 a 140 t/ha/ano de gás carbônico), comparado com eucalipto, árvore de rápido desenvolvimento, que produz em torno de 20 t/ha/ano (40 t/ha/ano de gás carbônico).
Superfícies densas e secas esquentam mais ao sol e esfriam mais à noite. O aquecimento é seguido pela queda na umidade relativa do ar, se não houver estrutura vaporizadora no local. Assim lavouras e pastagens quando tem o solo exposto, e nenhum elemento vaporizador (bosque, faixa de árvores, matas ciliares, reservas legais, quebra-vento etc.) são como "forninhos" que irradiam grandes quantidades de calor (infravermelho) que vai ser retido pela camada de gases de efeito estufa, e irradiado de volta para a Terra, gerando o aquecimento global.

Confinar o animal: em princípio os bovinos são péssimos conversores de grãos, devendo ser evitado o sistema de confinamento no estilo norte-americano.

Quais são as boas práticas agropecuárias que deveriam ser adotadas pelos pecuaristas brasileiros, visando minimizar os efeitos da pecuária no aquecimento global?

a) reter o máximo de água das chuvas, manter o solo permeável e arejado, o que só é possível quando permanentemente vegetado, com abundante retorno de material orgânico à superfície do solo. Assim, sobre-pastejo e queimadas devem ser evitados;
b) evitar solo exposto e áreas que gerem calor;
c) manter ou restabelecer estruturas vaporizadoras permanentes e que ainda podem quebrar ventos e fornecer sombra. O restabelecimento de matas ciliares e reservas legais seria o começo mais lógico. Quebra-ventos, sombras e bosques vaporizadores distribuídos estrategicamente;
d) evitar o manejo que favoreça a degradação de pastagens (necessitando derrubar matas para se conseguir novas áreas), nem que isso seja "necessário para ter lucro" na atividade. Esse argumento está chegando ao fim. Vai haver boicote para produtos originados nesse tipo de sistema de produção não sustentável e agressivo à vida. Realizando as boas práticas de manejo, atendendo aos princípios ecológicos, com muita água das chuvas armazenada e temperatura atenuada, o lucro é certo, pois a forragem deve ser abundante por mais tempo, já que os períodos secos devem ser mais curtos;
e) manejar as pastagens, de modo a se ter forragem nutritiva e se evitar sua degradação, evitando períodos de fome no rebanho. Deve-se aproveitar o potencial de produção de biomassa das forrageiras tropicais bem manejadas, como os Panicum, Pennisetum, Cynodon, Saccharum ou mesmo braquiárias mais produtivas. Evitar pastagem com proteína bruta inferior a 7%, evitar materiais muito fibrosos (a cana despalhada é exceção surpresa quando adequadamente corrigida).
Pode-se estimular a ingestão da forragem corrigindo com sal proteinado, uréia ou com concentrado. Porém, para condições de oferta de alimento de melhor qualidade, necessita-se gerar animais com potencial de produção maior do que os animais selecionados para situações de estresse ambiental.

O aumento da temperatura: ocorrerá queda na produção de culturas que dependem da florada para produzir, em 11% a cada 1ºC a mais acima da temperatura ótima da cultura. As plantas que não dependem de fase reprodutiva, como as árvores, as gramíneas (pastagens, cana), em princípio devem ter sua produtividade aumentada, desde que haja água disponível no solo (procurar trabalhar com escoamento zero de água das chuvas), assim, Odo diz para explorar mais o potencial de gramíneas e de árvores, os sistemas silvipastoris, e evitar ao máximo as queimadas. Com as mudanças climáticas e o aumento das áreas degradadas estão ocorrendo maiores amplitudes térmicas, com maior freqüência e intensidade de ondas de calor e de frio. 

Manejo do pasto: O "olho do dono" engordava o boi! Atualmente as cercas, e a falta de olho do dono para ver que está faltando pastagem é que constitui o grande problema ambiental. Necessita haver uma infra-estrutura natural mínima para rodar os serviços ambientais essenciais (especialmente atenuação das amplitudes térmicas e manutenção de água no solo e umidade no ar) para o sucesso dos sistemas produtivos. Pastagens melhor manejadas, talvez lançando mão do auxílio de pelo menos um técnico agrícola treinado para fazer o papel de "olho do dono", e ao final uma terminação mais acelerada com cana e concentrado seja uma solução, evitando que animais fiquem naquele ciclo de perdas de peso, quando por economia ou por falta de mão-de-obra treinada ou de tempo em se manter uma pastagem melhor manejada ou um talhão de cana ou um banco de proteínas arbustivos ou arbóreos para o período seco do ano, se alimenta os animais inclusive com seu próprio "filé-mignon". Isso é um absurdo que deve ser evitado, pois afeta o ambiente, aumentando a carga de metano emitido por quilograma de carne produzida ao final. Os animais também perdem muita energia quando necessita realizar grandes caminhadas ao longo do dia para encontrar água e forragem, o que atrasa seu desenvolvimento e dá prejuízo.

Evitar teor de proteína bruta na forragem menor que 7%. De preferência fornecer forragem mais tenra, com menos fibra. O manejo adequado de forrageiras tropicais permite isso. 

Além de opções de inclusão de forrageiras nobres como aveia em sobre-semeadura (em pastagens irrigadas) e alfafa na dieta, em situações específicas, e quando se tem um sistema de produção muito bem controlado, conduzido, com animais (genética) que também respondem à essa melhor qualidade da forragem, com rebanhos selecionados para ambientes com menos estresse alimentar ou de animais em cruzamento industrial, mais produtivos.

A qualidade da dieta se obtém com uso de forrageiras menos fibrosas. Manejadas para serem pastejadas num estádio vegetativo mais adequado, ou incluindo forrageiras de qualidade, ou incluindo sal proteinado em pasto vedado, ou usando um pouco de concentrado para corrigir a qualidade, por exemplo, da cana-de-açúcar despalhada e picada, ou como leguminosas.

Profissionalismo: o problema dos bovinos não é somente o metano, com o qual nosso rebanho brasileiro contribui com somente 2% do metano total global produzido por atividades humanas, ou 10% do metano ruminal global. Mas as perdas de energia em prolongadas caminhadas para encontrar forragem e água, e os períodos de restrição de forragem por falta de água, com perdas de peso, e que aumenta o metano emitido por quilograma de carne. 

Realizar as boas práticas de manejo, utilizando todas as informações e tecnologias essenciais de maneira integrada e na seqüência correta, que realmente exige maior controle de manejo dos recursos naturais e dos insumos, maior empenho em administração rural e controle zootécnico e econômico, com mínimo ou sem impactos sociais e ambientais.

Cuidar melhor do capital natural. E neste capital natural está incluído o uso estratégico de estruturas vaporizadoras hidrotermorreguladoras, as árvores, na forma de matas ciliares, renques quebra-ventos, bosques, reservas legais, sombras. Armazenar água de chuvas e reduzir as perdas por aumentos de temperatura por causa de solo não protegido e compactado, e que pode ser evitado, é o segredo do sucesso. Controlar água e temperatura, e a qualidade do alimento.

Assim, o pecado capital da pecuária bovina extensiva brasileira é o amadorismo inconseqüente e perdulário, com destruição do capital natural e dos serviços ambientais essenciais. É interessante perguntar por que o Brasil necessita de 190 milhões de hectares de pastagens para manter seu rebanho bovino, contra os 80 milhões de lavouras, e na Índia, com rebanho bovino maior, existem somente 15 milhões de hectares de pastagens, e 140 milhões de hectares de lavouras? Nossa lotação média nacional é de 0,6 UA/ha, e se for dobrada, para 1,2 UA/ha com a integração lavoura-pecuária, por exemplo, reduz-se a necessidade de área sob pastagem para a metade, 95 milhões de hectares. 

Os pecuaristas que conseguirem manejar pastagens sem eliminar todas as estruturas arbóreas estratégicas, ou que conseguirem restabelecer estas estruturas a partir das matas ciliares (tem garantia de água disponível) utilizando espécies de desenvolvimento relativamente rápido, como as de leguminosas fixadoras de nitrogênio (e inoculadas com micorrizas quando solo for pobre em fósforo), e que permitirem o retorno adequado de material orgânico (sem queimar palhadas) para a superfície do solo, protegendo-o contra impactos da radiação solar e das chuvas tropicais, terá mais chances de sucesso em seus sistemas produtivos. Lembrem-se: resumindo tudo, garantir água no solo e no ar, forragem de boa qualidade e controlar a temperatura é o fundamento do sucesso.

Resumo: Oliver Blanco

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