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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O que eu faria se voltasse a ser um extensionista?

por Polan Lacki

          Quando completei 40 anos de exercício como engenheiro agrônomo extensionista, decidi celebrá-los com a seguinte reflexão: o que eu faria se, depois de quatro décadas, tivesse que começar tudo outra vez? Se isso acontecesse, eu não atribuiria aos outros a culpa pelos problemas dos agricultores, não pediria que os outros solucionem os seus problemas, não solicitaria que os governos outorguem mais créditos e subsídios aos nossos produtores rurais, tampouco reivindicaria que os países ricos deixassem de concedê-los aos seus privilegiados agricultores. Adotaria tal atitude por estar convencido de que continuar fazendo essas propostas estéreis significaria perder tempo e por entender que existem atitudes e atividades muitíssimo mais construtivas que um extensionista pode e deve adotar e executar. Em substituição a essas reivindicações inviáveis e/ou ineficazes, eu trataria de desenvolver as capacidades e competências das famílias rurais para que elas mesmas possam resolver os seus problemas, sem necessitar de ajudas externas. Com tal fim, faria algo tão simples e "descomplicado" como o seguinte:

1) Convidaria os agricultores a um diálogo franco e realista, no qual lhes diria sem rodeios nem meias palavras, o seguinte: não percam tempo esperando que os governos, atuais ou futuros, solucionem os seus problemas, pois tal probabilidade é extremamente remota, não necessariamente porque os governantes não queiram, mas sim porque não reúnem - e não reunirão em um futuro previsível - as condições políticas, operativas nem financeiras para fazê-lo. Em virtude da crônica - e aparentemente incorrigível - inoperância e ineficiência governamental, proporia a eles que adotem a medida radical de emancipar-se da dependência do paternalismo estatal.

2) Com a finalidade de demonstrar-lhes que eles realmente podem diminuir a sua dependência de ajudas externas e que eles mesmos podem solucionar seus problemas, diria a eles que:

a) Sem querer e sem dar-se conta, eles mesmos cometem erros que são importantes causadores dos seus problemas e que, conseqüentemente, eles mesmos podem e devem evitá-los e corrigi-los; junto com eles, identificaria quais são esses erros e posteriormente sugeriria como poderiam ser corrigidos.

b) As ajudas do paternalismo estatal não são tão imprescindíveis como costuma afirmar-se; para confirmar isso, descreveria para eles varias alternativas tecnológicas, gerenciais e organizacionais que eles poderiam adotar, sem necessidade de contar com decisões políticas nem de recursos adicionais aos que eles já possuem.

3) Eu os advertiria de que, no contexto do neoliberalismo e da globalização, eles só poderão sobreviver como agricultores se forem muito eficientes na produção propriamente dita, na administração das suas propriedades, no acesso aos insumos e na comercialização de seus excedentes. Dir-lhes-ia que os agricultores parcialmente eficientes ou ineficientes, infelizmente, serão expulsos da atividade agrícola. Consciente do imperativo de que todos os agricultores, especialmente os mais pobres, necessitam tornar-se mais eficientes, recomendaria a eles iniciar tal "eficientização" adotando medidas elementares e de baixo custo. Demonstraria que, em uma primeira etapa de tecnificação, eles podem tornar-se mais eficientes, mesmo que não disponham de animais de alto potencial genético, maquinaria sofisticada cada nem tecnologias de ponta, pois, na referida etapa, esses fatores escassos e de alto custo, geralmente são prescindíveis. Para demonstrar-lhes esta "prescindibilidade", descreveria para eles vários exemplos de medidas que, mesmo sendo de baixo ou zero custo, são muito eficazes no incremento da produtividade da agricultura e da pecuária; idem na redução nos custos por quilo produzido, idem na obtenção de melhores preços na comercialização.

4) Procuraria torná-los conscientes de que, no mundo moderno, o êxito econômico dos agricultores depende, muitíssimo mais, de conhecimentos adequados que de recursos abundantes. Por esta razão lhes sugeriria que não percam tempo fazendo protestos, "caminhonaços" e "tratoraços" em frente ao Banco Central, ao Banco do Brasil ou ao Ministério da Fazenda, pelo simples motivo de que não é lá que estão as verdadeiras causas dos seus problemas. Sugeriria a eles que façam os seus protestos em frente ao nosso disfuncional sistema de educação rural (escolas fundamentais rurais, escolas agrotécnicas, faculdades de ciências agrárias e serviços de extensão rural), porque é lá que estão as causas mais profundas do subdesenvolvimento rural e, conseqüentemente, lá deverão ser eliminadas. Sugeriria que se organizem não para mendigar migalhas de créditos paternalistas, e sim para exigir que essas quatro instituições educativas proporcionem, aos extensionistas e às famílias rurais, conhecimentos úteis, aplicáveis e eficazes na correção das ineficiências e na solução dos problemas dos agricultores e da agricultura. Insinuaria que não percam temo ouvindo os teóricos de gabinete e os políticos eloqüentes, e que ocupem o seu tempo de maneira útil ouvindo os extensionistas competentes, os professores e pesquisadores com real vivência de campo e os agricultores eficientes.

5) A fim de estimulá-los a que adotem um desenvolvimento mais autodependente, ensinaria para eles como efetuar os denominados diagnósticos construtivos ou pró-ativos, isto é, aqueles diagnósticos que buscam identificar as potencialidades e oportunidades de desenvolvimento existentes nas suas propriedades e comunidades; idem as causas geradoras dos seus problemas, que possam ser eliminadas pelos próprios agricultores; idem os problemas que possam ser resolvidos por eles mesmos. Recomendaria que evitem o mau costume de realizar aqueles diagnósticos "paralisantes", que enfatizam as restrições e ameaças, as causas dos seus problemas que eles não podem eliminar e os problemas que eles não podem solucionar. Justificaria esta mudança de atitude dizendo-lhes que esses diagnósticos paralisantes: i)- são inócuos e inúteis porque conduzem a "soluções" que os agricultores simplesmente não podem adotar; e ii)- só servem para quem busca encontrar boas escusas para não assumir como sua a solução dos seus problemas.

6) Iniciaria o processo de modernização da agricultura, utilizando plena e racionalmente os recursos que os produtores já possuem, ou seja, começaria incrementando o rendimento e a produtividade dos recursos disponíveis, antes de reivindicar que o Estado lhes proporcione uma maior quantidade e fatores de produção. Indicaria a eles que, como regra geral, é mais conveniente incrementar o rendimento de uma vaca ou de um hectare de terra que aumentar a quantidade de vacas ou de hectares. Diria que, muitas vezes, os seus rebanhos produzem pouca carne, leite ou lã, não necessariamente por falta de animais de alto potencial genético ou de tecnologias de ponta, e sim porque estão famintos; e demonstraria que os alimentos necessários para incrementar, drasticamente, os rendimentos da pecuária podem ser gerados nas suas propriedades, através do melhoramento das pastagens e da autoprodução de rações balanceadas. Advertiria que, se as suas vacas produzem 4 litros de leite por dia e um terneiro a cada 22 meses, ou se os seus hectares de terra rendem 3.300 kg de milho, 2.090 kg de trigo, 3.200 kg de arroz, 712 kg de feijão ou 60 kg de carne ao ano (estes são os rendimentos médios da agricultura latino-americana), não lhes faltam vacas nem hectares, créditos nem subsídios, maquinaria nem instalações sofisticadas;  faltam-lhes conhecimentos, muitas vezes elementares, para que eles saibam aplicar, de maneira correta, tecnologias compatíveis com os recursos que eles realmente possuem.

7) Sugeriria que, para se tornarem menos dependentes de ajudas externas, convém para eles adotar um desenvolvimento mais endógeno que exógeno; um desenvolvimento que avance progressivamente, de dentro para fora, de baixo para cima, do mais simples e barato ao mais complexo e caro. Recomendaria que os fatores de modernização mais caros e escassos sejam um complemento na introdução de inovações tecnológicas e não um condicionante para começá-la; ou que a sua falta não seja uma escusa para não iniciá-la. Demonstraria que, através desta gradualidade, o mais pobre dos agricultores pode começar a solucionar, paulatinamente, os seus problemas, sem necessidade de contar com decisões políticas, créditos, insumos de alto rendimento e inversões de alto custo; porque, através de tal estratégia, a primeira etapa de tecnificação permite gerar os recursos necessários para financiar a segunda etapa, e assim sucessivamente. Indicaria que esta gradualidade contribui para romper a inércia dos agricultores mais conservadores, porque elimina o pseudomotivo (falta de ajuda governamental) que, supostamente, os "impede" de assumir como sua a tarefa de corrigir as suas ineficiências e solucionar os seus problemas  Demonstraria que, em muitos casos, os "motivos" que eles acreditam que os "impedem" de se desenvolver são mais aparentes que reais.

8) Recomendaria a eles que obtenham proveito das extraordinárias vantagens de diversificar a produção agrícola e integrá-la com a produção pecuária também diversificada, de modo que exista uma espécie de simbiose, sinergia e complementação entre ambas. Diria para eles que uma propriedade adequadamente diversificada pode desempenhar o papel de "supermercado", de "banco de crédito rural", de "companhia de seguros" e de "agencia de empregos"; porque ela gera alimentos para a família e para os animais, renda, insumos e ocupação produtiva para todos os membros da família durante todos os 365 dias do ano. Diria que a diversificação é a melhor "vacina" contra a dependência do paternalismo estatal e contra as incertezas e vulnerabilidades de clima, de mercado, de pragas e de enfermidades. Advertiria que a monocultura os torna, excessiva e às vezes desnecessariamente, dependentes do crédito rural, porque normalmente lhes proporciona apenas uma ou duas colheitas (e rendas/receitas) ao ano, enquanto que as suas despesas, produtivas e familiares ocorrem durante todos os 365 dias do ano. Insinuaria que, se o crédito rural fosse tão eficaz como costuma afirmar-se, não teríamos tantos agricultores tão endividados. Aos agricultores que dispõem de uma superfície de terra muito limitada, trataria de torná-los capazes para que possam substituir os produtos de baixa densidade econômica (milho, arroz, feijão, trigo, batata, mandioca, batata-doce, etc.) por outros mais sofisticados ou diferenciados (frutas, aspargos, morangos, flores, plantas aromáticas e medicinais, mudas de fruteiras e de plantas ornamentais, mel, produtos orgânicos, frangos caipiras, etc.), que lhes permitam obter altas rendas em pequenas superfícies.

9) Estimularia a progressiva formação de grupos associativos para facilitar e fazer viável a solução daqueles problemas que os agricultores não podem, ou não lhes convém, solucionar de forma individual, como, por exemplo os investimentos de maior custo e a redução dos elos das cadeias de intermediação de insumos e de produtos. Sugeriria que não continuem cometendo o seguinte "suicídio econômico", que está tão generalizado na nossa empobrecida agricultura: i) vender os ingredientes das rações balanceadas que eles produzem nas suas propriedades no atacado, ao primeiro elo da cadeia de intermediação, sem valor agregado, e... algumas semanas depois ii) adquirir as rações que foram fabricadas com os mesmos ingredientes que sairam das suas propriedades, fazendo-o no varejo, com alto valor agregado e do último elo de intermediação. Diria a eles que, se continuarem praticando esse individualismo autodestrutivo, serão cada vez mais vulneráveis à ação expropriatória das multinacionais e dos intermediários e que continuarão, desnecessariamente, pagando os fretes, os impostos e os pedágios para transportar as matérias-primas desde as suas propriedades até as fábricas de rações e destas até as propriedades de origem, tudo isto pago com o suor, o individualismo e a ingenuidade dos agricultores. Em resumo, sugeriria que não vendam milho, sorgo, alfafa, soja, mandioca, etc., e sim que transformem estas "comodities" em proteínas animais e estas, por suas vez, em derivados de leite e carne com valor agregado.

Observação: Sugestões para levar à prática esta estratégia emancipadora - baseada na capacitação para o autodesenvolvimento, na gradualidade tecnológica e na diversificação produtiva - estão descritas nos textos de apoio incluídos na seção "Artigos" da página web http://www.polanlacki.com.br especialmente nos seguintes livros:

1)Desenvolvimento agropecuário: da dependência ao protagonismo do agricultor”, e;

2)La modernización de la agricultura: los pequeños también pueden” (disponível apenas em espanhol).

O primeiro dos mencionados livros também poderá ser encontrado na Página web:

Polan Lacki nasceu e viveu a sua infância e adolescência na zona rural do município de Foz do Iguaçu, Paraná. Graças a esta circunstância começou a conhecer desde criança os problemas da agricultura convivendo com eles e aprendeu a executar várias atividades agrícolas e pecuárias, executando-as. É engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

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