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'Ofereço-me para cooperar com amor a fim de compartilhar a abundância de meu coração.'
'Comunico-me sem apegos e descubro a harmonia de evoluir na Terra.'

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

“violência estrutural”

por Sebastião Pinheiro
 

“Na pia batismal ele recebeu o nome de Lisarb e entre familiares recebeu o apelido de Pereba. A avó dizia que ele era a reencarnação do avô, pelo ranzinza. É bem verdade que, também todos os vizinhos eram unânimes a esse respeito. Circunspecto ele aprendeu a ler e escrever sozinho com três anos de idade. Fez mais, como toda a criança era obrigada a ir para a cama cedo, mas ficava sintonizando a rádio “El Mundo” de Buenos Aires e assim se tornou bilíngue já na pré-escola com os amiguinhos argentinos, paraguaios e uruguaios.

No primeiro ano do fundamental foi apelidado de “Zangado” em alusão ao anão da Branca de Neves, ao que respondia: “Aculturados”, com o cenho franzido, causando espanto na atônita primeira professora. Ao sorriso da mesma respondeu com voz suficientemente lenta: Eles têm sua “fadinha do dente” e estão querendo antecipar a visita dela.

Era bom aluno, contido, sem ser intrometido ou saliente. Contudo, respondia a qualquer provocação de forma direta. Em uma visita no “Dia das Crianças” ao “Orfanato Pão dos Pobres” foi argüido pela estagiária de pedagogia que auxiliava a professora. Sarcástica ela perguntou: - Já pensou, se você vivesse aqui?

Sem pestanejar ou sorrir respondeu: - Para os judeus, Moisés é a criança que descobre sua origem e determina o fim do cativeiro e início do fim do Império Egípcio; Para os católicos “os filhos de Saladino” eram as crianças da resposta árabe aos Cruzados estupradores, seus pais. Na primeira fileira ansiavam o acertos de contas. Já entre nós na Santa Casa de Misericórdia havia a “Roda dos Expostos”, onde a Igreja solucionava a imoralidade dos ricos e punia as mulheres (e crianças). Em nada diferente da odisseia de Oliver Twist imortalizada por Charles Dickens. A história do “Pão dos Pobres” está ligada à introdução do capitalismo mundializado na América Meridional através da Guerra do Paraguai. Hoje, obras como essa são anacrônicas e sobrevivem da benevolência cidadã, pois em nossa realidade “globalizada” o que interessa ao mercado são as instituições para menores infratores que aumentaram em dez mil vezes nos últimos cinquenta anos e servem como instrumento de eugenia mercantil através do discurso da violência estrutural. Eu aqui seria mais um mero produto, como os da Serra da Barriga, Serra de Cansanção e vales de Canudos, onde após a guerra as crianças do sexo feminino foram entregues em prostíbulos de Entre Rios e adjacências. 

Ao terminar ele olhou profundamente para o distintivo partidário da estagiária. Ela estava admirada, mais que isso estava embasbacada. Então ele arrematou: Nas universidades norte-americanas há o ingresso de mais de 600 crianças com a minha idade estudando e participando em projetos militares, enquanto que na Universidade de La Plata, 67 crianças com um pouco mais que minha idade foram mortas pelo governo por serem perigosos para o Estado. Ainda bem, que o livro “A República de Platão” não vigora, pois as crianças da mesma idade seriam irmãs e teríamos um genocídio naquele país. Desculpe minha sinceridade, mas se você vivesse aqui, jamais seria estagiária de uma universidade ainda pública, nem como “cota mitigatória”. E se por uma casualidade fosse essa exceção, seria enaltecida aos quatro ventos por ter superado e vencido as dificuldades e dona de grandes méritos, exemplo a ser seguido para respaldar e justificar o modelo vigente. É assim que a elite se reproduz, regenera e rejuvenesce. A senhorita de qualquer forma estaria no mercado, como mercadoria. 

A professora aproximou-se sorridente: Soube que encomendastes na marcenaria um tabuleiro para jogar damas em tamanho grande. Ele a olhou com respeito e atenção. - É, eu ganhei as peças oficiais, mas tinha um tabuleiro pequeno e como agora estou estudando as respostas de Alekhine à defesa Siciliana de Capablanca, pois já terminei a leitura do livro pela terceira vez” encomendei o tabuleiro para melhor visão do jogo...”

Este texto introdução não é nada esportivo ou futebolístico, nem lembra Nelson Rodrigues que nos separou todos em “Arquibaldos” e “Geraldinos” (freqüentadores de arquibancadas e gerais nos estádios). O texto, é sobre a “violência estrutural”, estigma ideológico sobre a principal vítima: a cultura popular nacional, pois somos antes de mais nada, todos, torcedores, por índole, pacíficos, cordiais e alegres, por isso todos saímos as ruas em junho passado, mas nem toda a sociedade é juventude. O poder sabe fazer infiltrações, manipulações e conduções, pois nutre a trilogia de cobiça - ódio – ignorância, então as imagens nuas e cruas do jogo, Atlético PR e Vasco da Gama transbordaram em “sucesso”.

A duas décadas dos EUA vinham na TV a cabo cenas com o mesmo nível de selvageria (UFC, Bellatur, MMA) segmento desportivo bilionário (patrocínio, prêmios, divulgação).

Não deve ser percebido que a “violência estrutural” é imposta para disfarçar a violência econômica sobre os direitos dos cidadãos no Estado de Bem Estar Social em decadência programada, onde a trilogia cobiça – ódio - ignorância estimulam jovens e familiares como as antigas turmas de bairros (patotas, piquetes etc.) em uma “tribalização” orquestrada onde o crime organizado extraía a renovação de quadros.

A “Mara Trucha” em Los Angeles, espólio da Guerra Civil em El Salvador e similares nas periferias de Paris ou Londres não permitem hipocrisias sobre o potencial de estímulo sobre as torcidas de futebol para extravasar cobiça – ódio - ignorância a espera do convite “sorte grande” das Lutas ou Máfias que as TV e filmes mostram. Afinal qual foi a saída dos chineses para a imposição do consumo de ópio misturado ao tabaco para aumentar a dependência e lucros: As artes marciais pelo agregado de cultura à trilogia anterior. Então os britânicos, franceses e norte-americanos,, japoneses, italianos, alemães fizeram duas guerras e dividiram a China como uma pizza (foto). Por favor, neguem que aquelas imagens (do jogo) não eram triviais nas delegacias, presídios, quartéis (e até antessala de júri) na recepção e tratamento sistemático dos detidos acusados de subversão.

De Nelson Rodrigues, que teve filhos encarcerados tomamos a máxima: “Subdesenvolvimento é coisa séria. É uma obra de séculos”. O alicerce fundamental do que o capitalismo mundial chama de “subdesenvolvimento” está na pusilanimidade dos ocupantes das “cadeiras eletivas” (ou cativas). La Pasionaria (I.D. Ibarruri Gomez) tenía razón. ¡Ellos no pasaron antes y no pasarán ahora!

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