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'Ofereço-me para cooperar com amor a fim de compartilhar a abundância de meu coração.'
'Comunico-me sem apegos e descubro a harmonia de evoluir na Terra.'

sábado, 10 de dezembro de 2016

Fumo Y-1

"Para entender a diferença entre o modernismo (r)evolucionário e a contra-revolução verde é preciso repetir que o primeiro aplicava a educação e o segundo a repressão" (Pinheiro: 2005,9)

Durante a época da ditadura tornou-se célebre a frase: o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil. Ela foi proferida por algum governante idiota de lá e repetida por algum dos muitos governantes idiotas de cá. Não se observou, porém que a frase-equação só era válida num sentido. Ou seja, nem tudo que é ruim para os Estados Unidos é ruim para o Brasil. O melhor exemplo foi escancarado em 1994.

Duas empresas americanas, a “DNAPlant Technology” e a “Brown & Willianson Tobacco”, desenvolveram e patentearam nos Estados Unidos, em 1993, uma variedade transgênica de fumo, denominada Y-1, que concentra duas vezes mais nicotina que a encontrada naturalmente na planta. Por razões de biossegurança, o governo americano não permitiu que a “British American Tobacco” fizesse experimentos com fumo em seu território. Os EUA sabem o risco que representa a entrada no meio ambiente de um ser com DNA alterado.

Sabem que é mais perigoso que mexer com vírus, radioatividade ou toxinas, porque pode haver multiplicação descontrolada, eliminação de espécies humanas ou vegetais.

Quando se fala em democracia no planeta, o primeiro país a ser citado como exemplo é os Estados Unidos. O discurso é ideológico, e tem sido repetido com tanta insistência pelas classes dominantes, usando a mídia, principalmente, que até os pobres adotaram como seu.

Nada é gratuito. O cinema americano dá uma grande contribuição à propagação da ideologia. Filme americano tem que ter perseguição com automóveis, efeitos especiais e julgamento. A perseguição revela a paranóia da sociedade americana (o nome da patologia é “mania de perseguição”), e acaba justificando o fazer justiça com as próprias mãos, daí tantos Rambos e similares.

Os automóveis e efeitos especiais servem para mostrar ao mundo, arrogantemente e ameaçadoramente, o avanço tecnológico industrial (e quase sempre a serviço da morte). Finalmente, a justiça é apresentada como modelo para o mundo. Pois este modelo foi adotado em benefício de alguns grupos em particular, e da sociedade americana - conservadora, moralista - de um modo geral.

As leis americanas estão preocupadas com o que pode beneficiar o povo norteamericano, e, preferencialmente, os brancos. Por este motivo a maior nação democrática do planeta aprovou no Congresso uma lei que permite aos Estados Unidos invadirem qualquer outra nação no planeta (e eles usam esta prerrogativa à média de uma invasão a cada dois anos); com o fim da guerra fria, os EUA, exemplo de democracia, tornaram-se os maiores fabricantes e vendedores de armas do mundo, e não há lei proibindo esse tipo de negócio. Uma outra lei dos EUA proíbe toda empresa americana de negociar com Cuba, mesmo que isso represente a morte de pacientes dependentes de alguns medicamentos produzidos pelos americanos. Felizmente a medicina em Cuba é tão avançada que pode dispensar a maior parte da produção dos EUA.

Voltando à questão do fumo engenheirado...

Com uma ética tão vagabunda como esta, é natural, portanto, que os EUA proíbam experimentos com plantas consideradas perigosas dentro de suas fronteiras, mas não proíbam que empresas americanas façam experimentos fora do país, preferivelmente no Terceiro Mundo, como se tornou praxe. Foi o caso da espécie de fumo Y-1.

É importante frisar que eles (os senhores representantes da democrática justiça americana) não proibiram o patenteamento, mas sim a experimentação em seu território. Ou seja, o plantio experimental teria que ser feito fora dos EUA... Foi o diretor da “Food and Drug Administration”, FDA, David Kessler, quem denunciou no Congresso americano a traição. Ele não questionou o patenteamento e nem mesmo a produção do Y-1; ele reclamou do fato de estarem vendendo esse fumo no seu país. Que o vendessem na Conchinchina, na África, no Brasil, mas não nos Estados Unidos! Afinal, se tem mais nicotina, vai aumentar a dependência de cigarros, os jovens serão os primeiros prejudicados.

David Kessler, enquanto diretor de uma empresa estatal responsável pela qualidade dos alimentos da população do seu país, estava indignado com a quebra do (mafioso) acordo - a Souza Cruz podia vender lá fora, mas não nos Estados Unidos. Foi a quebra desse trato de bandidos que fez com que o escândalo aparecesse: o fumo transgênico Y-1 estava sendo plantado no Brasil e exportado para os Estados Unidos. Para lá já teriam sido enviados 1,8 mil toneladas do produto.

Quem fez o plantio foi a Souza Cruz, uma empresa da Coroa Britânica, uma estatal portanto, oficialmente conhecida como “British American Tobacco”. Inescrupulosamente a Souza Cruz plantou o Y-1 no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Segundo o jornal Folha de São Paulo, o experimento foi mantido em segredo por dez anos. O Governo brasileiro não foi comunicado do plantio. A denúncia veio de lá, da matriz.

Segundo a Folha de São Paulo, a indústria do fumo nos EUA movimentou em 1994 US$ 48 bilhões. As autoridades médicas dos Estados Unidos (segundo a mesma fonte) informam que, se o fumo fosse proibido, haveria uma economia de US$ 52 milhões ao ano; 400 mil pessoas que morrem devido ao fumo por ano viveriam pelo menos mais sete anos. No Brasil, devido às doenças causadas pelo fumo, morrem 10 pessoas a cada hora, ou 100 mil por ano.

Isto é, a Souza Cruz mata o equivalente a uma Hiroshima por ano no Brasil.

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